
O Grande desafio

Pedro Bandeira


Toni era um garoto muito especial. Inteligente, excelente nadador e fera em computadores. Com muito bom humor, podia fazer melhor tudo o que um garoto da
sua idade fosse capaz... ou quase tudo.
O que fazer ento para conquistar Carla? Estava superapaixonado, mas como aquela garota iria querer algum como ele, assim diferente...
A oportunidade de aproximao veio de forma inesperada. O Pai de Carla estava sendo injustamente acusado de desfalque. Era preciso provar sua inocncia!...
Com astcia, Toni enfrenta o crime organizado, a cobia desenfreada, o medo e, principalmente, o preconceito.
Voc vai se envolver nesta aventura e ver como podemos tudo, bastando para isso ter vontade, coragem.


        Toni, o nosso heri,  um menino quase da sua idade. Estuda, gosta de computadores, de msica, natao e, como voc, est dando os primeiros passos nos caminhos
do amor. Carla  a garota por quem est apaixonado. Mas como, ele que por vezes se sentia to inseguro, poderia declarar sua paixo.
        A chance de mostrar seu valor veio com a priso do pai de Carla, seu Afonso, o contador da escola. Toni resolveu ajud-la. juntos se envolveram nas mais
emocionantes e surpreendentes aventuras. Ningum diria que o valente e perspicaz Toni era privado de um sentido.
        Confesso que me emocionei com Toni: com certeza, ele nos ensina muito.
        Quantas vezes nos sentimos desmotivados diante da vida, sem ter uma razo realmente forte como a dele? E, apesar das dificuldades, Toni no desiste: luta
com coragem e determinao para vencer o grande desafio.
        Voc tambm vai gostar desta histria e se surpreender com o final. Alm disso, como eu, ter uma tima oportunidade de reflexo. De rever os sentidos de
sua vida.
        Alm de uma histria de mistrio, esta  a histria de Toni, um garoto muito especial. As qualidades que eu criei para este personagem so a soma de vrias
caractersticas que se encontram em muitas outras pessoas especiais como ele. Toni  algum que, apesar de no ter tudo o que os outros tm, consegue conquistar
muito mais. E quantos de ns, que nascemos com tudo, quantas vezes no nos queixamos e nos sentimos infelizes e incapazes? Espero que Toni possa fazer voc encontrar
foras dentro de si mesmo para enfrentar a vida com confiana e alegria.

        Pedro Bandeira




      1 - Algemado como um marginal?

        A pergunta continuava a ressoar dentro da cabea de Toni: por qu?
        Seu Afonso, preso? Por qu? Acusado de qu? Como  que o contador da escola podia ter sido levado da sala da diretoria por dois policiais, algemado como
um bandido qualquer? Logo o contador do Colgio Professora Cidinha Moura, o instituto de educao mais antigo e famoso da cidade?
        Seu Afonso, preso! O pai da Carla, aquela menina maravilhosa da outra oitava... A linda Carla... Toni sabia que ela era linda, que era a mais linda de todas
as garotas da escola...
        O garoto s no sabia o que pensar...
        "Ainda ontem  noite... eu... com a mame... falamos do seu Afonso... e... e da Carla! Por causa do baile do fim do ano... Eu estava to feliz... Comecei
at perguntando por que mame nunca mais namorou..."
        - Por que voc nunca mais namorou, me?
        - Ora, Toni! Isso  coisa que se pergunte  prpria me?
        - Se a prpria me est viva h oito anos,  para a prpria me que eu tenho de fazer essa pergunta, no ?
        - Tem muito "prpria me" nessa frase, meu filho!
        Os dois riram.
        O pequeno Chip, deitado no tapete, olhava como se tivesse entendido a brincadeira.
        Pelo menos em muitas das noites era assim. Depois que a me voltava do trabalho no hospital, os dois jantavam juntos, conversando sem parar, e ligavam o
som. Danar era antiga paixo da me, introduzida desde cedo na educao de Toni.
        Marta era ainda uma bela mulher, nos seus pouco mais de trinta anos. Passara um quarto de sua vida como viva e, pelo jeito, passaria mais. Trabalhava como
enfermeira durante o dia inteiro e ia conseguindo transformar em homem o menino que o pai deixara rfo h oito anos.
        Toni sabia que o casamento dos pais tinha sido curto. Pelo jeito, a morte no gosta de felicidades perfeitas... Marta parecia viver somente das recordaes
desse casamento que o passar do tempo tornava cada vez mais perfeito: a memria teima em esquecer detalhes ruins que poderiam prejudicar a lembrana do que se gosta
de lembrar.
        E Toni era a lembrana do marido de que ela mais gostava.
        - Hum... Como voc est guiando bem, meu filho...- cumprimentou a me quando a msica chegou ao fim.- Ah, agora lembrei: preciso preparar voc para a festa
do fim do ano!
        - Que festa, me? A do centenrio do Cidinha?
        - Ai, Toni! Voc esqueceu que a festa do centenrio da escola coincide com a sua festa de formatura? E eu ainda no te ensinei a danar valsa!
        O rapaz fez cara de chateado:
        - Valsa, me?! Mas que velharia!
        Desde pequeno, desde que o pai era vivo, Toni tinha aprendido a gostar de msica. De todo tipo de msica, mas, depois que atingira a adolescncia, seu gosto
estava mais para popular do que para clssicos.
        Marta no ligou para a objeo do filho e ps-se a procurar na pequena estante.
        - Voc estuda num colgio tradicional, querido. Ningum pode imaginar um baile de formatura no Cidinha sem valsa...- afastou as fitas e comeou a examinar
uma pilha de velhos discos.- Deixa ver... valsa eu s tenho em vinil... H quanto tempo a gente no ouve esses discos! Aqui est: Valsas inesquecveis Johann Strauss!
        - Valsas inesquecveis, me...? Isso todo mundo j esqueceu faz tempo...- mentiu Toni, que j ouvira aquele disco umas mil vezes.
        Marta ligou o toca-discos. Um som de violinos, cheio de chiados, preencheu a sala e a me aproximou-se do filho. O rapaz sorriu, aceitando o jogo. Tinha
extrema facilidade para aprender novos passos e, depois de duas voltas, j estava guiando a me em crculos pela pequena sala da casa.
        A me fez uma cara gozadora:
        - No  gostoso, Toni? Em toda formatura tem valsa. A das madrinhas  minha. E com quem voc vai danar a valsa dos namorados?
        O rapaz parou de danar subitamente.
        - O que foi, filho?
        Toda a alegria do momento parecia ter desaparecido. O rapaz ficou vermelho e explodiu:
        - Eu no sou como os outros, me! Nunca poderei ser como os outros! Quem vai querer namorar algum como eu?

        J estava mais calmo quando a me saiu do quarto, depois de beij-lo. Ela sabia como animar o filho. Repetiu mais algumas vezes que ele era igual a qualquer
um, que poderia fazer o que quisesse na vida. No freqentava a melhor escola da cidade? E sempre se saindo muito bem, embora fosse o nico aluno "especial" que
j tinha estudado no Cidinha em todos aqueles cem anos? No tinha at conseguido aprender a usar computadores, enquanto a maioria de seus colegas ainda estava s
nos videogames? No danava melhor do que qualquer um? No nadava melhor do que todos?
        O nico aluno "especial" do Cidinha! A moderna pedagogia, para garotos como ele, recomendava a educao integrada e no segregada. Tradicionalmente, a direo
reservava uma parte de suas vagas para bons alunos sem recursos, mas s Toni, alm de bom aluno e de no ter recursos, era "especial". O Cidinha era duro demais
e continuava recusando-se a ampliar as vagas para outros como ele. Toni era uma exceo na histria daquele colgio.
        Chip dormia quietinho, ao p da cama, sempre no mesmo lugar, ao lado dos chinelos do garoto.
        Toni comeou a sentir o sono chegar, acariciando a idealizao daquela menina que ele acompanhava h anos no colgio, sem nunca ter encontrado coragem para
abord-la. Daquela menina, filha do seu Afonso, o contador da escola. Daquela menina com quem ele gostaria de danar a tal valsa. Daquela menina com quem ele gostaria
de viver o resto da vida: Daquela menina chamada Carla...
        J tinha aprendido o que queria dizer "amor platnico", mas no era esse tipo de amor que ele gostaria de trocar com Carla. Ah, ele queria mais, muito mais!
        O cachorrinho ressonou, como se sonhasse. Algum como Toni poderia sonhar com a chance de um dia ter Carla a seu lado?
        Sonhou que sim.


      2 - Por favor, confesse!

        No incio da semana anterior, sentado na ponta da cadeira, seu Afonso suava, sem saber por onde comear.  sua frente, do outro lado da escrivaninha de quase
cem anos, recostado no espaldar alto da poltrona moderna que contrastava com o clima de museu da sala da diretoria, o diretor ouvia, sem nada demonstrar na expresso
do rosto.
        - Bem, o senhor compreende, no ? Sou o contador do Cidinha desde que me entendo como adulto, mas foi muito difcil aprender a lidar com os novos sistemas
de computao...
        - Muito bem, mas por que o senhor convocou os auditores?
        - Foi uma deciso difcil, mas...
        - Mas o qu? Por que convocou os auditores para examinar as contas do colgio sem uma autorizao expressa da diretoria?
        Seu Afonso passava o leno pelo rosto, pelo pescoo, sem coragem para encarar o interlocutor de frente.
        -  que... eu sempre tive autonomia completa na contabilidade... O professor Frederico...
        - Papai est no hospital. Em coma profundo.
        - Sim... mas eu achei que estava fazendo o que ele gostaria que eu fizesse...
        - O senhor tomou uma deciso drstica como esta s com base no que "achava"?
        - No foi bem assim... custei a entender o uso dos computadores, mas eu tinha quase certeza de que havia um desfalque na contabilidade do colgio... As contas
estavam alteradas, grosseiramente alteradas, eu diria... Quando consegui destrinchar aquele mundo de desenhinhos, de janelas, de "edits", de "formats", de "files"
e no sei mais o qu, as alteraes ficaram claras. No parece coisa de algum que entenda de balanos...
        O diretor levantou-se. Estava calmo, como se a revelao de um grande desfalque nas contas do Cidinha fosse um acontecimento normal. Bruscamente, mudou de
assunto:
        - O senhor teve dificuldade com os computadores, seu Afonso? Mas eles so o futuro! Os tempos mudam, caro amigo. O que o Cidinha precisa  de mtodos mais
modernos.
        - Bom... at agora, os velhos mtodos do colgio...
        - Desculpe, seu Afonso- interrompeu o diretor.- No serei eu quem pretenda lhe dar lies de vida. Mas acho que, para ver o que h de errado numa estrutura
caduca,  preciso ter vindo de fora.
        O contador calou-se. De repente, o diretor encarou-o:
        - E sua esposa, seu Afonso? Como est indo?
        O contador mudou de tom. Da apreenso pelo que viera relatar ao diretor passou para o desnimo que atormentava sua vida.
        - No est nada bem... A doena dela  muito grave...  o fgado, sabe?... E o tratamento... caro demais! Ela precisa tomar remdios carssimos, importados,
durante um ano... J vendi o carro... Um carro velho... no cobre nem dois meses de tratamento...
        - O tratamento custa to caro assim? - interrompeu o diretor.
        - Se custa! Mais de um ano de meus salrios...
        - E o convnio mdico dos funcionrios da escola no cobre esses remdios, no ?
        - No... o contrato do convnio no cobre tratamentos ambulatoriais... S internaes, cirurgias...
        - Quer dizer que o senhor precisa de dinheiro? De muito dinheiro, no ?
        - S-sim...
        O diretor fez uma pausa. Deixou passar um largo momento de silncio, preparando o clima do que falaria em seguida.
        - Se o senhor precisa tanto de dinheiro, e com tanta urgncia, seu Afonso, muita gente poderia pensar que foi o senhor mesmo quem deu o desfalque para conseguir 
o dinheiro, no acha?
        O contador levantou-se, de um salto:
        - Eu?! Isso nunca! O que  que o senhor est dizendo? Nunca toquei em um tosto do Cidinha em toda a minha vida!
        A mo do diretor levantou-se, espalmada, apaziguadora: 
        -  claro que no, seu Afonso,  claro que no. Sei muito bem que o senhor no praticou o desfalque nem nunca praticaria. O que eu quero fazer  uma proposta 
para o senhor...
        O diretor aproximou-se, apoiando amigavelmente a mo no ombro do homem mais velho, que o olhava sem entender o que estava para acontecer.
        - Seu Afonso, e se eu conseguisse esses remdios de que sua esposa precisa?
        O olhar do contador brilhou e um sorriso de gratido estampou-se em seu rosto.
        - Os remdios? O senhor poderia...?
        -  claro que eu poderia, seu Afonso. Afinal de contas, o senhor  um dos mais antigos funcionrios do Cidinha. 
        - Obrigado... nem sei como...
        - Como agradecer?- interrompeu o diretor. Mas existe um modo muito simples de agradecimento. 
        - Qualquer coisa...  s o senhor dizer...
        - Eu quero que o senhor confesse que foi o senhor quem deu o desfalque.
        O rosto do contador ficou branco:
        - Como?!
        Os dois homens estavam de p, encarando-se. Ainda mais fraternal, o diretor apertou-lhe carinhosamente o ombro:
        - Como eu disse. Basta confessar que foi o senhor mesmo quem desviou dinheiro da contabilidade do Cidinha.
        - Mas isso  um absurdo! Eu...
        - No  um absurdo, seu Afonso.  uma sada lgica e nem muito complicada. Veja: se o senhor confessar, a escola pagar os melhores advogados para tentar
reduzir sua pena. E, pelo seu passado, pela condio crtica de sua mulher, qualquer juiz haver de conden-lo a uma pena leve, talvez o senhor possa at cumprir
a pena em liberdade. E, durante todo esse tempo, eu cuidarei de sua famlia como se fosse minha. Nada faltar  sua mulher e  sua filha, eu lhe garanto. Seu emprego
no Cidinha continuar garantido, a bolsa de estudos de sua filha continuar em vigor e o senhor ter sua mulher sadia de novo. O que me diz?
        A boca do contador estava aberta, acompanhando o arregalado de seus olhos.
        Seu Afonso mal podia acreditar no que ouvia:
        - Nunca! Eu nunca faria isso! Minha honestidade ...
        -  maior que o amor que o senhor tem por sua mulher?
        - Isso no vem ao caso! Eu jamais confessaria uma coisa dessas!
        O diretor sorriu, de um modo superior:
        - No? E se eu o acusasse do desfalque?
        Seu Afonso comeava a tremer, apavorado:
        - Me acusar? Como assim?
        - Em quem todos acreditariam? Na diretoria do Cidinha, que merece o respeito da comunidade h quase cem anos, ou no senhor, que todo mundo sabe que nem consegue
dormir pensando em um modo de conseguir dinheiro para o tratamento de sua mulher?
        - Se o senhor me acusar, eu posso provar que no fui eu! E nenhum juiz me condenar! Serei absolvido!
        - Ser? Mas o senhor perder o emprego.
        - Posso arranjar outro!
        - E quem iria contratar um contador que j foi julgado por desfalque?
        Seu Afonso calou-se. Plido, trmulo, desabou, afundando-se na cadeira.
        - Acho que, sem dinheiro para bons advogados, dificilmente o senhor escapar da condenao. Nesse caso,  provvel que a pena seja maior. Durante ela, talvez
sua filha tenha dificuldades de encontrar um bom colgio para continuar os estudos.
        E, infelizmente, no final dela, talvez sua esposa no esteja mais viva...
        O rosto do contador afundou-se nas mos.
        - Compreenda, seu Afonso. S estou querendo ajud-lo. Se fizer o que eu estou pedindo, todos saem ganhando. O desfalque ser esquecido e sua esposa viver...
        Caminhou at a estante e de l retirou um livro. Voltou com passos lentos e estendeu-o para o contador.
        - O senhor conhece este livro, seu Afonso?  um lindo romance... antigo... Chama-se Beau geste. Quer dizer "belo gesto", em francs...  a histria de trs
irmos, muito unidos. Um diamante valiosssimo, pertencente  famlia h geraes, desaparece. Cada um dos irmos, pensando que o roubo fora cometido pelo outro,
assume a culpa e foge para alistar-se na Legio
        Estrangeira e lutar na frica em busca do esquecimento e na esperana de salvar o irmo. Lindo gesto, no?
        Seu Afonso comeou a chorar.


      3 - Novas cabeas no velho colgio

        Naquela tarde, ainda lembrando da sesso de valsas de Strauss da noite anterior, Toni tinha voltado ao Cidinha depois do almoo para consultar a videoteca.
        Seu grupo s teria de entregar o trabalho de Histria dali a duas semanas, mas o rapaz gostava daquela sala, normalmente pouco freqentada durante a tarde.
        Ficava horas por l, ouvindo repetidas vezes as informaes do imenso acervo de documentrios em vdeo e anotando tudo o que precisava. Mais tarde, digitaria
caprichosamente sua parte do trabalho na sala de computao. Se todos tambm fizessem sua parte naquela semana, ele, que estava encarregado da redao final, poderia
entregar o trabalho at antes do prazo.
        Sua me tinha razo: ele era capaz de fazer tudo o que os outros faziam. Bem... quase tudo...
        Alm das gravaes da National Geographic, havia vrios vdeos da BBC sobre Histria e outros conseguidos pelos professores do Cidinha na TV Educativa.
        As horas voaram. Toni decidiu-se por um intervalo e resolveu dar uma volta, depois de tomar gua no bebedouro do corredor. Se tivesse dinheiro, daria um
pulo  cantina, mas...
        Desceu um lance de escada at o trreo e entrou na biblioteca.
        Sabia quais os livros que ajudariam o grupo no trabalho de Histria. E era muito fcil ach-los, pois a bibliotecria-chefe tinha verdadeira mania pela organizao:
cada volume podia ser encontrado sempre no mesmo lugar, na mesma estante. E o Colgio Cidinha Moura, antigo, imenso, tradicional, possua uma das melhores bibliotecas
da cidade.
        Toni adorava manusear aqueles livros calmamente, folheando cada volume, tateando-os e imaginando seu contedo.
        Sentou-se com os livros perto de uma das janelas da biblioteca. Com prazer, aspirou o perfume do papel, da encadernao, da lombada, podendo perceber quais
dos livros eram mais velhos e quais tinham sido recentemente adquiridos pelo colgio.
        Como acontecia de uns tempos para c, o pequenino Chip tinha ficado no jardim, muito quieto,  fiel disposio do seu dono. O doutor Larcio Moura, um dos
dois novos diretores, consentira alegremente com a permanncia do vira-latinha na escola.
        O jovem doutor Larcio, filho do professor Frederico, a quem os alunos se referiam como "O Velho", era muito diferente do pai. Bem mais compreensivo e muito
mais moderno. E realista o suficiente para entender que o cozinho de Toni era mais disciplinado do que a maioria de seus alunos... A "flexibilizao" daquela regra
foi tima para Chip e para Toni, pois um no sabia viver longe do outro.
        Grande amigo, o doutor Larcio!
        Num canto da ampla biblioteca, uma funcionria digitava furiosamente o teclado de um computador. Bem, poderia ser um furicionrio, mas Toni sabia distinguir
o cheiro de um homem do perfume de uma mulher.
        "E deve ser bonitinha, essa da...", imaginou o rapaz , sorrindo e lembrando-se que o Cidinha decididamente tinha entrado em uma nova fase, desde que o professor
Frederico introduzira o filho e o genro na administrao, comeando a preparar a prpria aposentadoria e a continuidade do colgio.
        O doutor Larcio Moura era um apaixonado pela educao. Vivia em contato com os alunos e imaginava um novo Cidinha, mais moderno, mais descontrado, mais
criativo. Os professores jovens o adoravam, e os conservadores no conseguiam ir contra ele. A simpatia do jovem diretor era contagiante.
        Gustavo Marcondes, o genro, um sujeito sempre bem vestido, era ps-graduado em administrao de empresas e fantico pela modernidade. Parecia interessar-se
somente por tecnologia e pelas finanas e mostrava-se totalmente ausente nas relaes com os alunos. Continuara fazendo parte da famlia, mesmo depois que dona Vernica
Moura Marcondes, sua esposa e filha mais velha do professor Frederico, morrera num desastre de automvel, no incio daquele ano.
        O genro iniciara uma verdadeira revoluo tecnolgica, sentida em cada canto do colgio. Os computadores tomavam conta de tudo, vencendo o horror do professor
Frederico pelas inovaes. Gustavo at mandara importar uma impressora em Braile, para facilitar o acesso de Toni ao uso dos computadores. Uma impressora que, ao
invs de imprimir em tinta, produzia pequenos relevos no papel! E, o que era melhor, no computador que Toni usava havia sido instalada uma placa de som especial,
um sintetizador de voz, com uma vozinha de mulher que repetia suavemente cada tecla que o rapaz apertava...
        A presena daquela digitadora na biblioteca era s mais um dos exemplos das mudanas introduzidas por Gustavo. Todo o imenso acervo de livros, at o final
do ano, estaria cadastrado em computador e os complicados arquivos de fichas seriam aposentados, provavelmente junto com o velho diretor - se o professor Frederico
sobrevivesse.
        Coitado do Velho! Em coma, em um hospital, depois do fatdico acidente que sofrera caindo das escadarias da escola, h exatamente duas semanas... Toni lembrava-se
de ter ficado estudando na videoteca naquele dia at pouco depois das seis horas. No dia seguinte, todo mundo no Cidinha soube que, na noite anterior, o professor 
Frederico escorregara e cara das escadas do terceiro andar... Naquela idade, ser que ele conseguiria se recuperar? E voltar a dirigir o colgio com sua mo de 
ferro?
        Aquele velho professor, h vinte anos responsvel pelo sucesso e pela respeitabilidade do Cidinha, era severo demais. Tinha sabedoria para dar e vender, 
mas faltava-lhe um pouco de cintura para compreender certas coisas e permitir que algumas regras no tivessem de ser to rigidamente obedecidas. Alto, com sua vasta 
cabeleira branca sempre despenteada, o Velho ostentava a severidade de um maestro capaz de reger uma orquestra sinfnica apenas com o rigor do olhar.
        Trabalho de Histria... Toni sabia que estudar no Cidinha era participar da histria da cidade. A famosa educadora Cidinha Moura fundara aquela escola h 
quase um sculo. Trisav do professor Frederico Moura e tetrav do doutor Larcio Moura e de dona Vernica Moura Marcondes, a falecida esposa de Gustavo, seu busto 
austero, srio e carrancudo dominava em bronze a entrada do colgio, como um guarda sempre vigilante.
        A disciplina, no Cidinha, era dura como a esttua de sua fundadora. Mas era um colgio bom de se estudar. O melhor da cidade, procurado pelas elites desde 
sua fundao. Ou por quem tinha a sorte de conseguir uma bolsa de estudos total, como Toni...
        H cinco geraes, a famlia Moura vinha se sucedendo na direo e fazendo o Cidinha crescer, sempre aplicando a maior parte dos lucros na ampliao do colgio. 
Desse modo, a famlia Moura nunca enriquecera, mas era dona de um colgio imenso, que ocupava vrios quarteires na zona mais valorizada da cidade.
        O Velho, agora no hospital - diziam que com muitas fraturas! -, talvez no mais pudesse voltar  direo. At o ano anterior, todo mundo sabia que a nova 
diretora seria sua filha Vernica, ativa professora do Cidinha desde a adolescncia. Mas, depois de sua morte to trgica, a sucesso lgica seria o doutor Larcio, 
pois Gustavo, o genro vivo, parecia interessar-se mais por dinheiro do que por educao. No entanto, at que esse momento chegasse, o colgio parecia bem-estruturado 
com os dois novos diretores: um ocupado com administrao e tecnologia e o outro preocupado com educao.
        O fato era que, nas mos pedaggicas do doutor Larcio e com a tecnologia moderna de Gustavo, o Cidinha j estava mudando de figura.
        O genro acreditava tambm em propaganda e, pela primeira vez em sua histria, aquela tradicional instituio de ensino anunciava suas qualidades nos jornais, 
nas rdios e na televiso. Comentava-se que Gustavo sonhava em fixar o Cidinha como uma marca que poderia ser licenciada em todo o pas, multiplicando a escola original 
em uma centena de novos Colgios Professora Cidinha Moura, espalhados pelos quatro pontos cardeais.
        E o que pensava o professor Frederico de tudo isso? Toni lembrava-se de ter ouvido uma discusso entre o Velho e o genro certa vez em que passava pelo largo 
corredor, em frente  porta entreaberta da sala da diretoria...
        
        
      4 - Comrcio ou educao?
         
        - O que importa ao Cidinha Moura  a qualidade, Gustavo, no a quantidade. H quase cem anos  isso que caracteriza nosso colgio: a qualidade de ensino!
        - Qualidade custa dinheiro, papai - respondia a voz segura do administrador de empresas, que chamava o sogro de pai. - O Cidinha pode se tornar uma mina 
de ouro, o senhor no percebe?
        - Isto  uma escola, Gustavo. Um sonho de educadores, no de mineradores!
        - Ora, papai! Onde est o mal em alardear as qualidades centenrias do Cidinha? A publicidade, hoje em dia, ...
        O Velho interrompia:
        - A melhor publicidade  o respeito que nossa famlia conquistou nessa cidade, Gustavo! H quase cem anos!
        A voz do genro no se alterava, argumentando com pacincia, como se falasse com uma criana que custa a entender as coisas:
        - Chega de falar em sculos, papai. Veja, por exemplo, a questo das apostilas...
        - No me venha novamente com essa histria de apostilas! Somos uma escola, no uma editora!
        - O Cidinha pode produzir apostilas a baixo custo, papai. Assim, quando licenciarmos a "marca" Cidinha em todo o pas, nossas apostilas tero um mercado 
cativo, que...
        - O Cidinha no  uma marca de lanchonete, Gustavo!
        - Ora, papai...
        - E veja aonde seus gastos com publicidade esto nos levando: em toda nossa histria, nunca estivemos em dificuldades financeiras to crticas como agora!
        - Investimentos em publicidade podem custar a dar retorno, mas acabam multiplicando os lucros como o senhor jamais poderia imaginar. Veja que j agilizamos 
muita coisa aqui dentro com os novos computadores!
        - Bah! Mquinas modernas! O conhecimento no  moderno, Gustavo.  eterno!
        O genro fazia uma pausa. Depois, falava com desnimo na voz:
        -  papai... pelo jeito, instalar computadores no Cidinha no  o suficiente. No bastam as mquinas serem modernas.  preciso que as pessoas tambm o sejam... 
        Lembrando-se daquela conversa, Toni sorriu para si mesmo, ao pensar que s agora, depois da entrada dos novos diretores, sua presena naquela escola estava 
sendo aproveitada como propaganda. Lembrou-se da entrevista que Gustavo dera  televiso, falando do sucesso de um aluno como Toni, que estudava desde pequeno numa 
escola no especializada:
        - No Cidinha, formamos alunos especiais - dissera o diretor  entrevistadora. - Esse menino que eu citei j  capaz de dominar o uso dos computadores com 
apenas quatro meses de treinamento. Conhece o teclado de cor e digita qualquer texto, apesar de...
        Aquela tinha sido uma forma de Gustavo anunciar que sua escola era uma verdadeira fbrica de "milagres educacionais"...
        Toni tinha gostado de ser citado na televiso.
        "... os jovens entendem melhor de propaganda do que os velhos...", pensava Toni, apoiando o cotovelo na janela da biblioteca.
        Deitado no jardim a poucos metros do prdio, descansando a cabea sobre as patas, Chip observava seu dono. E o garoto sentia a presena do co, l fora. 
Chip o compreendia. Como qualquer pessoa. s vezes muito melhor que muitas pessoas.
        E foi daquele ponto de observao que Toni ouviu u a sirene e a freada na frente do porto principal... 
        Ouviu algum bater a porta do carro e, logo em seguida, uma voz gritando para o porteiro:
        - Polcia!
        
        
      5 - O que a polcia tem a ver com escolas?
         
        O garoto passou daqueles pensamentos  preocupao: o que viria a polcia fazer ali? O que a polcia tem a ver com escolas?
        Volteando as mesas, Toni saiu apressado da biblioteca e chegou ao largo corredor interno no momento em que percebia dois homens passando por ele. 
        Notou que um deles era mais velho e ofegava. O outro, mais jovem e mais afobado, sacudia nas mos um objeto metlico. Se eram policiais, aquele objeto s 
poderia ser... um par de algemas! "Algemas?!"
        O corao de Toni disparou. Encostou-se na parede do corredor e ficou  espera, sem ousar aproximar-se da porta da diretoria, por onde ouviu os policiais 
sumirem.
        No precisou esperar muito. A porta logo se abriu e os dois homens saram, arrastando um terceiro pelo corredor. Os policiais levavam preso algum da escola! 
        Quem? Toni, como se fosse sem querer, deu um passo  frente, justo na hora em que os trs chegaram ao ponto onde ele estava. O pequeno grupo quase esbarrou 
no rapaz e, mesmo antes de ouvi-lo, Toni j sabia que era seu Afonso que os policiais arrastavam algemado pelo corredor. Misturado com o cheiro enjoativo do chiclete 
que um dos policiais mascava, o aroma de fumo de cachimbo impregnando o terno do contador era inconfundvel.
        A voz de seu Afonso veio num fio, reconhecendo o aluno:
        - Oi, Toni...
        - Nada de conversa. Vamos logo! ordenou uma voz grossa, mal-humorada.
        Os passos dos trs sumiram pelo corredor, fazendo desaparecer em direo  sada a brutalidade dos policiais e a vergonha do seu Afonso.
        O pai de Carla... 
        Por qu? Por qu? Por qu?
        Toni procurou dominar as batidas aceleradas do corao e enfiou-se pelo largo corredor para a esquerda, o lado oposto ao da sada dos trs. Para aquele lado 
ficava a diretoria. De l sara seu Afonso algemado. L estariam as respostas.
        Parado na porta, reconhecvel de longe pelo perfume suave da lavanda que sempre usava, estava o doutor Larcio.
        A voz do jovem diretor, normalmente alegre e brincalhona, tinha agora um tom de desnimo e de derrota, embora procurasse parecer segura para o aluno que 
se aproximava.
        - Toni? Voc veio para estudar na videoteca, no ? Apesar de ser um "veterano" do Cidinha, Toni sentia-se tmido demais para interpelar um diretor. Mas 
o nervosismo quebrou a timidez:
        - Por favor, doutor Larcio, por que isso?
        O jovem diretor hesitou um instante. Ele sabia que Toni era difcil de enganar.
        - Bom, Toni... Voc deve ter percebido alguma agitao, no ? E deve querer saber o que aconteceu...- Desculpe, mas o que aconteceu eu percebi, doutor Larcio. 
O que eu no posso entender  por que seu Afonso saiu daqui algemado.
        Mesmo conhecendo a inteligncia daquele aluno, Larcio engasgou novamente. 
        Toni tinha percebido que o contador sara dali com os pulsos algemados! Como poderia? Aquele aluno era surpreendente de verdade.
        - No h de ser nada, Toni. No h razo para pnico. Tudo no deve passar de um mal-entendido. A escola pagar os melhores advogados da cidade. Logo voc 
ver seu Afonso de volta.
        Pigarreou em seguida, confundindo-se com o uso do verbo "ver", justo em relao a Toni.
        - Posso saber de que seu Afonso  acusado, doutor Larcio?
        - J disse para no se preocupar, Toni. Seu Afonso no tem nada a ver com o que suspeitam.  melhor voc nem saber de qu, porque em vinte e quatro horas 
tudo estar resolvido.
        - Mas, doutor Larcio...- recomeou o garoto.
        - Agora me d licena, Toni - interrompeu o diretor. - Tenho alguns telefonemas urgentes a fazer...
        A porta da diretoria fechou-se e Toni ficou parado um instante, tentando reorganizar os pensamentos, que se revolviam a mil por hora depois da inexplicvel 
priso de seu Afonso.
        Atravs da porta, ouviu os bips do telefone sendo digitado. Em seguida, muito abafada, vinha a voz do doutor Larcio. Primeiro um "al", depois uma frase 
difcil de entender, seguida de um "tudo bem".
        Toni franziu as sobrancelhas: "Tudo bem?! Que histria  essa?" Procurou apurar o ouvido, mas a espessura da porta tornava a voz do diretor muito difcil 
de entender. Encostou o ouvido na fechadura no momento em que o telefone era desligado. Depois, s o silncio.
        No adiantava esperar mais explicaes por ali.
        Voltando pelo corredor, duas portas alm da diretoria ficava a sala da contabilidade, quase em frente  biblioteca. De l, vozes excitadas discutiam.
        Toni aproximou-se em silncio, como um gato colado  parede.
        - E, ainda por cima, algemado no chiqueirinho, como um bandido qualquer! - indignava-se a chefe dos bedis.
        - Logo o seu Afonso? Mas por que isso?- admirava-se o professor de Geografia.
        A voz da chefe dos bedis insistia:
        - Mas a gente precisa saber o que houve, Tadeu! Por que a polcia veio prender seu Afonso?
        - No sei direito... - respondia o jovem tcnico em computadores que fora contratado no incio da nova fase do Cidinha e agora andava informatizando a contabilidade. 
- E, mesmo que soubesse, no tenho autorizao para falar nada. Perguntem  diretoria!
        - Esto comentando por a que houve um desfalque nas contas da escola - juntava a voz da professora de Qumica.- Os auditores saram daqui ontem. E disseram 
que foi o prprio seu Afonso que convocou a auditoria. Isso no  estranho? Voc deve saber de alguma coisa, Tadeu!
        "Desfalque?!", surpreendeu-se Toni.
        - No sei de nada- escusava-se Tadeu.- No tenho autorizao da diretoria para comentar nada!
        O corao de Toni saltava-lhe no peito. Depois da conversa com o doutor Larcio, alguma coisa o incomodava, por dentro. O que o diretor dissera ao telefone?
        Aquela priso era estranha, muito estranha...
        Ele estava perturbado demais. E ele tinha razes para isso. Seu Afonso era o pai da Carla, sua paixo secreta...
        
        
      6 - Seu Afonso confessou?!
         
        Toni no perdeu tempo. Atravessou o corredor e saiu pela porta principal. Do bolso do bluso, tirou sua bengala dobrvel. Com uma sacudidela, a varinha estendeu-se 
e ele desceu rapidamente os degraus que levavam ao jardim. Em meio minuto, pisava a calada, j com Chip grudado em seu jeans.
        Ele sabia onde ficava o telefone pblico que os alunos costumavam usar. Por sorte, estava desocupado. Pegou uma ficha no bolso e discou para a escola.
        - Colgio Cidinha Moura, boa tarde- atendeu a voz mecnica da telefonista.
        - Ligue com o tal Tadeu, da contabilidade! - ordenou Toni, com um tom malcriado na voz bem grossa que procurava fazer.
        - Quem deseja...?
        - Aqui  da polcia! Ande logo!
        A ligao foi completada na mesma hora e Toni ouviu a voz do tcnico em computao:
        - Al?
        " agora..." pensou o garoto. "Tem de dar certo!" - Hum...  da Central. Quero falar com um tal de Tadeu! 
        - Da polcia? - respondia a voz amedrontada do tcnico. - Sou eu mesmo...
        - Aqui  o escrivo da Central e tenho de preencher o boletim de ocorrncia do caso de um contador chamado Afonso, a dessa escola...
        - S-sim...? - gaguejava Tadeu, bombardeado pela agressividade do policial.
        - Trata-se de um desfalque, no ? Meteram a mo na grana da escola, no ?
        A voz do tcnico tornou-se atrapalhada ao telefone: 
        - ... mas o delegado Mendes e o outro policial... o Xavier, no  esse o nome do outro?... saram agora mesmo levando o...
        - Ainda no chegaram aqui! - cortou Toni, mais malcriado do que nunca, como achava que se comportam os policiais. - E eu tenho de preencher esse maldito 
B.O.!  bom colaborar!
        Tadeu concordou na mesma hora:
        -  claro. Tudo bem. O que o senhor quer saber? - Quero saber tudo. Os auditores descobriram a falta da grana, ? E como descobriram que foi o tal Afonso 
que meteu a mo na massa?
        - Mas isso vocs j sabem! - espantou-se Tadeu. O delegado Mendes...
        - J disse que o Mendes no chegou ainda! E eu no tenho tempo a perder, rapaz! Desembucha logo!
        Tadeu respondeu como se estivesse ameaado de tortura: 
        - Seu Afonso confessou tudo, doutor... Como  mesmo o seu nome?
        Mas o telefone j tinha sido desligado. 
        Agora ele j sabia: seu Afonso tinha sido preso por dois policiais chamados Mendes e Xavier. Preso por ter confessado um desfalque nas contas do Cidinha! 
        "Seu Afonso confessou?! Confessou ter tomado dinheiro pertencente  escola? Mas que absurdo! Seu Afonso jamais tocaria em um tosto que no fosse dele. S 
mesmo uma razo importantssima, imensa, poderia explicar essa confisso. O que eu preciso  descobrir qual  essa razo. Ou se existe alguma!"
        Quem passasse e prestasse ateno quele garoto, poderia pensar que ele brincava de esttua. Estava parado na calada, imvel. Mas, por dentro, havia uma 
revoluo em suas emoes.
        "Preciso descobrir. Mas o que estou fazendo? Como  que eu vou dar uma de detetive?"
        Seria a influncia de tantas novelas policiais que ele pegava emprestado na Biblioteca Braile? Acrescidas pelos filmes de ao de que ele gostava tanto? 
No. Era Carla...
         "O que  que eu vou fazer? Por onde eu vou comear?", pensava Toni enquanto esquentava o jantar que gostava de deixar pronto antes da chegada da me, que 
passava o dia trabalhando no hospital. Naquela noite, haveria planto de enfermagem, e a me teria de voltar correndo ao trabalho.
        - Au, au!
        - Quietinho, Chip. Sua comida j vai sair...
        Depois da cena de filme policial que representara ao telefone, Toni tinha usado mais uma ficha para ligar para a casa do contador. Carla estudava na outra 
oitava e, at aquele dia, a atrao do rapaz pela colega era um segredo s dele. As conversas entre os dois sempre tinham sido superficiais. Toni jamais ligara para 
a casa de Carla, mas sabia de cor o nmero do seu telefone.
        Naturalmente, ningum atendeu. A esposa e a filha do contador deviam ter ido  delegacia. Ou consultar os advogados de que falara o doutor Larcio. Recolheu 
a ficha de volta, pensando que at o dia seguinte nada mais havia a fazer
        "Mas, o que h a fazer?", pensava o garoto esperando o sono chegar. "E como  que justamente eu poderia fazer alguma coisa?"
        - Voc pode fazer tudo o que quiser... - era a voz da me ressoando em seus pensamentos.
        Marta j jantara rapidamente com o filho e tinha voltado para o trabalho. No dormiria quase nada naquela noite. Toni sabia que ela no mximo teria direito 
a uns cochilos e s estaria de volta no dia seguinte, depois das nove da noite.
        Os sonhos com Carla em seus braos foram substitudos por pesadelos, onde a prpria menina estava na cadeia, sendo torturada por um policial suado, de voz 
grossa...
        No tapete, ao lado da cama de Toni, Chip dormia tranqilamente.
        
        
      7 - Meu pai no  um criminoso!
         
        Gostaria de chegar mais cedo ao Cidinha, mas o "seu" nibus, dirigido por aquele motorista que o conhecia e buzinava duas rpidas vezes para que ele no 
tivesse de perguntar a ningum qual o nibus certo, tinha seu horrio de chegar. Para descer, Toni no precisava de ajuda, pois era capaz de localizar-se durante 
todo o trajeto do nibus e saber at em que ponto do percurso ele estava.
        A primeira aula era de Educao Fsica. Toni alegou uma dor no joelho para ser dispensado da ginstica de que tanto gostava. O professor recomendou-lhe exerccios 
leves na piscina, sabendo quanto o garoto adorava nadar. E Toni teve de inventar um comeo de resfriado para receber dispensa total.
        Correu para a biblioteca e ficou de p, junto  porta, folheando as pginas do primeiro livro que seus dedos tocaram ao estenderem-se para a estante.
        Virava as pginas a esmo, com os ouvidos em alerta para qualquer movimento no corredor que viesse da sala da diretoria.
        "Nessa hora, o lgico seria uma reunio entre os diretores e a esposa do seu Afonso. Com Carla junto, na certa..."
        O tempo passava e a ansiedade de Toni s fazia aumentar. Recolocou o livro na estante e voltou para o corredor, andando em direo  sala da diretoria. Adiante 
dela, ficava a sala dos professores. Se algum perguntasse o que ele fazia ali, diria que... o que ele diria? Bom, inventaria qualquer desculpa na hora.
        Na frente da porta fechada, abaixou-se e passou um tempo s voltas com os cordes dos tnis. Aquela era a sala anteriormente ocupada pelo professor Frederico, 
onde agora instalara-se o doutor Larcio. A sala de Gustavo ficava no terceiro andar, junto ao salo dos computadores.
        Vinda da sala da diretoria, ouvia uma fala ansiosa, suplicante, mas era impossvel distinguir as palavras. Dava para perceber que era de uma mulher adulta. 
Uma mulher que chorava, nos breves intervalos entre as splicas...
        Ouvia outra voz, com um tom mais fofo, mais apaziguante, masculina.
        " o doutor Larcio..."
        As vozes aproximavam-se da porta.
        "Reunio encerrada. Preciso me mandar... A sala dos professores! Fica vazia depois do sinal.  pra l que eu vou!"
        J estava dentro da sala dos professores, procurando esconder-se, quando a porta da diretoria foi aberta.
        - J disse para no se preocupar, dona Clotilde... era a voz do doutor Larcio. - Tudo no deve passar de um terrvel engano. Confie em nossos advogados...
        - Mas o Afonso nem quis minha visita, l na delegacia... Recusou-se a ver a prpria esposa e a filha... - a voz da me de Carla saa fraca, na certa devido 
 doena.
        - Ele deve estar perturbado. A senhora vai poder abra-lo ainda hoje, dona Clotilde. Os advogados vo entrar com um habeas corpus. O crime dele ...
        Uma voz mais jovem explodiu, indignada:
        - Crime?! Meu pai no  um criminoso, doutor Larcio!
        "Carla..." 
        -  claro que no, querida,  claro que no! O que eu quis dizer  que...
        - Meu pai  inocente! Inocente!
        A voz da menina ficou abafada. O diretor devia estar abraando-a.
        - Calma, Carla... tudo vai acabar bem... Ns todos do Cidinha confiamos no seu pai...
        Os trs afastavam-se pelo corredor. O jovem doutor Larcio guiava me e filha para a sada, sempre consolando ternamente as duas.
        Distrado pela cena que ouvia, Toni no percebeu uma quarta pessoa que entrava na sala dos professores. 
        - O que  que voc est fazendo aqui, moleque? Era a voz dura de Gustavo...
        
        
      8 - Voc no pode ficar sozinha...
         
        Outra reunio de trs pessoas na sala da diretoria. Desta vez, Toni fazia parte dela. E o diretor que o arrastara para l no estava para consolar ningum:
        - Veja, Larcio! Peguei esse moleque escondido na sala dos professores.
        - Toni? Por que voc no est na classe?- perguntou Larcio, com um tom divertido na voz.
        - Eu...  Educao Fsica... fui dispensado...  que eu... 
        Gustavo cortou:
        - Voc o qu? O que  que voc estava bisbilhotando na sala dos professores? No conhece as regras do Cidinha? O que  que voc queria l?
        - Na-nada...
        - Ah, vai ver queria meter o nariz nos armrios dos professores, no ? Vai ver queria descobrir o que vai cair em alguma prova, no ?
        - Eu?! No, senhor...
        Larcio riu abertamente e nem perdeu tempo argumentando com o cunhado o bvio daquela questo: como  que um aluno como Toni poderia "meter o nariz" nas 
anotaes dos professores?
        - Ora, Gustavo, no precisa ser to severo com o rapaz... Vai ver Toni se perdeu nesse mundo de corredores...
        "Boa! Como  que eu no pensei nessa desculpa?" E o garoto agarrou a deixa:
        - ! Foi isso mesmo! Pensei que era a biblioteca. Nem sabia que era a sala dos professores...
        A mo delicada de Larcio pousou em seu ombro, guiando-o para a sada. O episdio no teria maiores conseqncias.
        Afastou-se, ouvindo a voz de Gustavo:
        - . Se papai no estivesse no hospital, esse garoto ia acabar suspenso! Voc  mole demais, Larcio!
        Como  que naquele ptio to grande e vazio durante as aulas Toni pde descobrir onde estava Carla?
        Talvez porque ele soubesse que aquele era o "cantinho" da menina. Um trecho de mureta, depois das quadras, onde s vezes ela ficava sozinha, mergulhada em 
pensamentos.
        Quantas vezes Toni tinha se aproximado por trs dela, podendo sentir-lhe o perfume, sem jamais conseguir coragem para dirigir-lhe uma palavra que fosse?
        Mas agora era diferente. Fechou a bengala dobrvel e guardou-a no bolso. Chegou por trs da mureta e falou, logo que a brisa confirmou-lhe quem estava ali: 
        - Oi, Carla...
        Toni notou que a voz da menina respondia para a frente, sem voltar-se para o garoto que invadia sua privacidade. E sua tristeza...
        - Por favor, Toni... quero ficar sozinha...
        Carla o tinha reconhecido, somente por sua voz, sem nem precisar olhar para o seu lado. Uma coragem que Toni desconhecia em si mesmo fez com que insistisse, 
com segurana, ainda que seu tom de voz tenha sado meio tmido.
        - No, Carla. Numa hora dessas, voc no pode ficar sozinha. Eu quero ajudar voc.
        - Voc, Toni? - dessa vez a voz voltara-se para ele. Carla o encarava, na certa descrente daquela oferta to absurda:
        - Eu mesmo, Carla. Sei que seu pai no fez nada de errado. Ns precisamos provar isso.
        - Como  que voc sabe? O que voc sabe, Toni? Meu pai confessou o desfalque...
        - Sei disso tambm. E isso s aumenta minha certeza de que tem muita coisa errada nessa histria toda.
        Sentiu a mo da menina tocar-lhe o ombro.
        - Obrigada, Toni. Mas o que a gente pode fazer? 
        - Vamos  delegacia, Carla. Precisamos descobrir por que seu pai confessou o desfalque...
        - Eu e mame j estivemos l ontem. E papai recusou-se a falar com a gente.
        - Doutor Larcio disse que os advogados iam entrar com um habeas corpus, para libertar seu pai. Nem sei direito o que  isso, mas j ouvi dizer que os advogados 
conseguem soltar pessoas com esse documento. O tal habeas corpus deve ser entregue ainda hoje de manh. Vamos  delegacia. Seu pai deve estar saindo de l agora. 
No vai poder fugir de voc, vendo a filha na porta,  espera dele.
        - Mas mame...
        -  melhor irmos s ns dois, Carla. Ele deve estar sentindo...
        - Vergonha de ns duas? 
        - Bom, eu no queria...
        - Pode deixar, Toni. Essa  a nica explicao que existe para papai no querer ver a gente. Um homem como ele, sempre certinho, deve estar morrendo de vergonha 
de receber a famlia do lado de dentro de uma cadeia... - deteve-se um pouco, mastigando um soluo que teimava em explodir. - Papai passou a noite l, numa cela... 
na certa na companhia de bandidos que...
        - No pense nisso! - interrompeu Toni. - Temos de agir. Venha comigo. A delegacia fica a trs quadras do Cidinha.
        Segurou o cotovelo da menina e Carla deixou-se conduzir docilmente.
        Chip atravessou o jardim como uma flecha e juntou-se aos dois.
        - Oi, cachorrinho...
        Carla ajoelhou-se e acariciou o plo fofo do pequeno Chip, que sacudia a cauda para ela e procurava lamber-lhe as mos.
        - Chip gostou de voc, Carla.
        Gostaria de acrescentar "quase tanto quanto eu", mas ficou com a comparao s para si.
        Caminharam em silncio, ambos sentindo que muita coisa os unia naquele colgio. Pelo menos, ela e Toni faziam parte daquela "percentagem" de alunos que no 
chegavam e saam do Cidinha em carros particulares. Dois meninos pobres, num colgio de ricos.
        Chip corria ao lado do rapaz, esfregando-se em suas pernas.
        Com a mo no ombro de Carla, Toni no tirou a bengala dobrvel do bolso.
        
        
      9 - No se envergonhe de mim...
         
        A voz que os recebia atrs do balco da delegacia era to malcriada como aquela que Toni fizera ao telefone para interrogar Tadeu:
        - Que  que vocs querem?
        - Ns queramos falar... - comeou Carla.
        - Precisamos falar com o delegado Mendes - interrompeu Toni.
        Por trs deles, uma voz grossa perguntou: 
        - Que  que vocs querem comigo?
        "Nada de conversa. Vamos logo!", era o que Toni lembrava de ter ouvido dizer aquela voz, no dia anterior. "Um malcriado... vou ter de ir com jeito..."
        O policial ofegante, que Toni encontrara pela primeira vez arrastando seu Afonso pelo corredor, estava ali, atrs deles, com o mesmo jeito de poucos amigos 
que parecia ser sua marca registrada. A seu lado, o garoto percebeu a presena de mais algum, que mascava um chiclete de cheiro enjoativo, com a boca aberta. O 
tal Xavier. Ali estava a dupla que havia prendido seu Afonso.
        - Delegado Mendes? Que bom encontrar o senhor. Esta  Carla, filha do seu Afonso, aquele que...
        - Sei quem  essa menina, garoto - cortou o delegado, agressivo, como se estivesse prestes a expulsar os dois.
        - Ela j esteve aqui ontem. Mas o suspeito no quis falar com ela, nem com a mulher. E voc, quem ? Filho dele tambm?
        - Desculpe perguntar, mas os advogados j entraram com o tal habeas corpus, delegado? - perguntou Toni, sem responder.
        - Nenhum maldito advogado apareceu por aqui. "Ainda no? O que andam fazendo esses tais advogados?"
        - Ser que a gente poderia ver seu Afonso agora? - Negativo. Ele no quer receber ningum, eu j disse! Sem despedir-se, o delegado Mendes e o investigador 
Xavier sumiram para dentro da delegacia.
        A mo de Toni apertava o ombro de Carla consolando-a.
        - Eu no vou chorar... - sussurrou ela. - No vou chorar...
        Toni sentiu um corpo grande que chegava por trs deles. Sentiu tambm uma mo no ombro. A outra deveria estar envolvendo Carla.
        - O que aconteceu, meninos?
        A voz era seca, mas sem qualquer tom agressivo.
        - Ns... - comeou Toni. - Mas, quem  o senhor?
        - No me chame de senhor, garoto - respondeu o grandalho. - Esse negcio de "senhor" faz com que eu parea mais velho, no ? Sou o investigador Barbosa. 
O que vocs vieram fazer aqui?
        - Meu nome  Carla... vim falar com meu pai...
        - Quem  seu pai, menina? O que ele fez para estar aqui?
        - Ele no fez nada, seu... quer dizer, Barbosa... intrometeu-se Toni. - Ele  um homem honesto. O nome dele  Afonso...
        O investigador soltou o ar vagarosamente:
        - Seu Afonso? Sei quem . O caso no  meu. O carcereiro diz que esse  um prisioneiro estranho, rapaz, muito estranho. No se defende e no quer falar com 
ningum. No pede nada e parece o tempo todo a ponto de chorar ..
        - Chorar? Oh, papai... - murmurou Carla, apoiando o rosto no ombro de Toni.
        Toni procurou seu tom de voz mais conciliador, tentando convencer o investigador:
        - Sei que ele ontem no quis falar com a famlia, Barbosa. Mas, ser que o senhor... que voc no pode nos ajudar?  que, depois de uma noite na cela... 
pode ser que ele tenha mudado de idia, no ?
        Barbosa suspirou, bufou e decidiu-se:
        - Est bem. Vou ver se o prisioneiro quer receber vocs. Mas o cachorro no entra, hein? 
        - Oh, papai!
        Sentados num banco de madeira, a menina abraava seu Afonso. Filha e pai choravam em silncio, tentando consolar um ao outro.
        - Minha menina...
        - Papai, voc no fez isso! Eu sei que no fez. Por que confessou?
        - Carla... - seu Afonso suspirou fundo. - Tente compreender... Sua me precisava daqueles remdios to caros...
        - Os remdios? Mas telefonara, ontem do hospital, dizendo que todas as doses que a mame precisa esto liberadas para ela. At o fim do tratamento. O que 
tem isso a ver...?
        - Tudo, minha filha. Compreenda. Eles liberaram os remdios porque eu dei o dinheiro para eles. Eu precisava desesperadamente conseguir dinheiro para o tratamento 
de sua me... Seno, ela teria poucos meses de vida...
        Os soluos da menina foram abafados contra o peito do pai.
        A voz do contador saa baixa, quase um sussurro, enquanto suas mos afagavam os cabelos da filha:
        - Obrigado, Toni, por cuidar da Carla. Tente ajud-la a compreender. Eu tinha de conseguir o dinheiro... 
        Toni aproximou-se do homem e tocou-lhe o brao, como se tambm fosse seu filho.
        - Seu Afonso... foram os auditores que descobriram o desfalque, no ? Foi muito difcil a auditoria?
        - No... as alteraes eram to grosseiras que... - interrompeu-se e mudou de tom -  que eu estava nervoso, no sabia lidar direito com os computadores 
e acabei fazendo tudo meio malfeito...
        - Os auditores vieram logo depois do acidente do professor Frederico, no foi, seu Afonso? - continuou Toni, como se fosse uma criana que pede humildemente 
explicaes a um adulto. - Ele tinha concordado com a auditoria?
        - No, ele no queria que... - sacudiu a cabea e ps-se de p, num arranco. - Ora, o Velho est no hospital. Talvez nunca se recupere. Vamos deix-lo em 
paz. Agora preciso voltar para a cela. Tente compreender, minha filha. Cuide bem de sua me e no se envergonhe de mim...
        - Eu, papai? Envergonhar-me de voc? Nunca!
        - Me espere com pacincia. Talvez minha condenao seja leve. Tudo vai ficar bem, voc ver. Sua me vai viver e voc continuar com a bolsa de estudos. 
Tenho de pagar pelo que... - aspirou com fora, como se procurasse forar-se a completar a frase - ... pelo que fiz...
        Voltou as costas e saiu, levado por um policial, sem olhar para trs.
        Barbosa, que presenciara a conversa, afrouxou a gravata, como fazia toda vez que se sentia inseguro.
        
        
      10 - Um criminoso denuncia seu prprio crime?
         
        No saguo de entrada da delegacia, o garoto no falava. De cabea baixa, seu raciocnio revolvia-se com tal intensidade que ele parecia estar ausente. Tinha 
certeza de que seu Afonso havia fornecido pelo menos duas boas contribuies para ajudar a esclarecer aquele mistrio. Uma eram os tais erros grosseiros... 
        Grosseiros? E a outra era... Qual era mesmo a outra? A bolsa de estudos... O que tinha a bolsa de estudos de Carla a ver com o desfalque?
        Chip aceitou o colo da nova amiga. Aos poucos, o carinho e o calor daquele pequenino felpudo a acalmavam. 
        Tambm aos poucos, a expresso de Toni mudava.
        Era agora a de quem entendera alguma coisa, algo que tinha escapado  menina, na emoo de encontrar o pai numa cadeia. Erros grosseiros? Como um timo contador 
cometeria erros grosseiros de contabilidade em seu prprio desfalque?
        - No entendo, Toni. Por que papai confessou essa barbaridade? Ele jamais faria isso!
        A voz da amiga despertou-o de seus pensamentos e Toni falou, com um misto de segurana e alegria:
        - Ora, Carla! Depois dessa conversa com seu pai, isso ficou mais do que claro, no acha?
        - Ficou claro? O que ficou claro? 
        - A inocncia do seu pai.
        - Mas ele no disse nada, Toni. Ficou s reafirmando o tempo todo que era culpado e...
        - Ao contrrio, Carla. Ele nos disse, o tempo todo, que no foi ele quem tirou dinheiro da contahilidade da Cidinha!
        - Que no foi ele? O que voc est querendo dizer?
        - Essa  a histria mais mal contada que eu j ouvi. Em primeiro lugar, por que o prprio autor do desfalque convocaria uma auditoria para descobrir um crime
que ele cometeu?
        - ... no tinha pensado nisso... Vai ver foi o prprio professor Frederico que...
        - Ah, ah! A est: seu pai parou de falar justo na hora que deixava escapar que o Velho sabia do desfalque. Sabia do desfalque h duas semanas, antes do 
acidente!
        - Bom, mas isso no quer dizer que...
        - Quer dizer muita coisa, Carla. O que voc sabe do seu pai, profissionalmente?
        - Como assim, "profissionalmente"? 
        - Ele  um bom contador?
        -  claro que ! Um dos melhores!
        - E no ouviu ele dizer que foi fcil demais para os auditores descobrirem as alteraes na contabilidade? Voc acha que um contador competente como ele 
faria alteraes "grosseiras" naquelas contas?
        - Ora, mas ele disse que estava nervoso, que no sabia lidar direito com os computadores...
        - E por isso cometeria erros grosseiros? Erraria na aritmtica? Confundiria as contas de um balano?
        - Mas ns no sabemos se h erros de aritmtica nas tais contas! E eu nem sei direito o que  um balano!
        - Nem eu, mas sabemos o que seu pai disse: erros grosseiros! Como  que o autor falaria assim de seu prprio ato?
        O raciocnio de Toni comeava a desanuviar o estado de esprito da menina. Seu coraozinho disparava quando perguntou:
        - Voc acha que ns vamos provar que meu pai  inocente, Toni?
        - Pode ser, Carla, mas isso ainda vai levar algum tempo. Nada podemos provar contra a confisso dele. Mas podemos ir atrs de mais detalhes dessa histria 
to confusa.
        - Ora, Toni! A confuso , continua a mesma! Papai confessou e...
        - Vamos recapitular tudo o que sabemos, do modo mais lgico: suponhamos que seu pai descobriu uma alterao "grosseira" nas contas do Cidinha. Descobriu 
que dinheiro estava sendo desviado. Falou da descoberta para o Velho, que caiu das escadas antes de poder tomar qualquer providncia. Em seguida, com o professor 
Frederico no hospital, seu pai convocou uma auditoria para confirmar suas suspeitas. Da...
        - Da nada, Toni. Da ele confessou que foi ele mesmo!
        - Esse  o ponto principal, Carla! Ns temos de descobrir por que seu pai confessou. Essa  a chave do mistrio!
        - No adianta, Toni... - desanimou-se a menina. - Ele teve um motivo fortssimo para o desfalque: a doena de mame!
        - Qual o hospital onde sua me se trata Carla? 
        - No Central...
        - No Central? Minha me trabalha l!
        Aquele era um hospital pblico. O segundo emprego de Marta era no Metropolitano, o hospital dos ricos, onde o professor Frederico estava internado.
        Toni voltou-se e saiu quase correndo do saguo da delegacia em direo  calada.
        A menina, carregando o pequeno Chip no colo, esforou-se para alcan-lo.
        Ele estava parado, junto  guia. Ficou vermelho e pediu:
        - Agora eu preciso de voc, Carla. Tem um telefone pblico aqui por perto?
        - Aqui do lado, Toni. Venha.
        O telefone ficava na esquina. Estava ocupado e os dois tiveram de esperar impacientemente. No momento em que ouviu o "clic" do aparelho sendo desligado, 
Toni j estava em cima dele, quase empurrando a senhora que acabava de deix-lo.
        - Mas que falta de educa... - a mulher calou-se, ao ver quem a havia empurrado. - Ahn, desculpe...
        - No, eu  que peo desculpas, senhora - respondeu Toni, j discando com pressa.
        Foi preciso esperar bastante tempo at que a me de Toni fosse localizada no hospital Metropolitano, onde trabalhava at a hora do almoo.
        - Al? Me? Sou eu... Preciso de um favor...
        - Com o barulho da rua, Carla no conseguia ouvir a breve conversa.
        - Qual o nmero deste telefone, Carla? - perguntou o rapaz, interrompendo a conversa.
        A menina aproximou-se e leu o nmero em voz alta. Toni repetiu cada um deles para a me e desligou.
        - Pronto, Carla! Vamos esperar aqui mesmo. Mame vai ligar j, j com a resposta.
        
        
      11 - No pode haver crime sem motivo!
         
        Don Peperone estava feliz. Afrouxou a cinta e deixou as calas carem no piso de mrmore do imenso banheiro.
        As banhas esparramaram-se em toda a volta do seu corpo, cobrindo metade da privada.
        Ficava sempre assim, relaxado, contente, quando estava fazendo uma boa digesto.
        Mas, naquela manh, havia razes mais fortes para deix-lo de bem com a vida alm do belssimo sanduche de pastrami que tinha saboreado, fazendo uma boquinha 
antes do almoo.
        Os negcios iam de bem a melhor. Mais uns dias e seus negcios iriam estender-se alm do comrcio de drogas e do jogo ilegal. Com os novos planos, as organizaes 
de Don Peperone haveriam de tornar-se to honestas como um banco.
        "Os negcios imobilirios! Isso sim  que d ricchezza. Molto danaro!"
        Arrotou de felicidade ao lembrar-se o quanto tinha sido fcil envolver o diretor daquela escola. Como gostava de jogo, o canalha! Foi s dar-lhe crdito, 
at que sua dvida se tornasse impossvel de pagar e o resto fcou fcil.
        "Ah, ah! E o coitado achou que podia livrar-se dessa, desviando uns trocadinhos da contabilidade da escola! Ah, ah! Stupido ragazzo..."
        Mas agora estava tudo bem. O rapaz afinal se convencera. Com o afastamento do velho diretor, logo aqueles valiosssimos quarteires estariam  disposio 
de suas mos gordas. A demolio do colgio no deveria levar mais que uns trs ou quatro meses e as cotas do novo shopping center poderiam comear a ser vendidas.
        "Imagine! Una stronza di una scuola naquele terreno to espetacular... Que desperdcio!"
        Mais um dia ou dois, e o velho estaria morto, resolvendo todos os problemas e coroando de xito os planos de Don Peperone.
        Os gases ribombavam no bojo de porcelana da privada, como uma banda de bumbos a acompanhar-lhe os pensamentos.
        Carla estava bem prxima do amigo, apenas com o cozinho entre os dois. Toni acariciava a cabecinha de Chip e sua mo tocava-lhe o corpo de vez em quando.
        O adorado perfume daquele corpo nunca estivera to perto dele. Por um momento, o rapaz esqueceu que estava metido numa investigao de gente grande, como 
se nunca tivesse feito outra coisa do que desvendar crimes misteriosos.
        O calor daquele corpinho ocupou-lhe os pensamentos por completo. Sentiu a boca seca e tinha certeza de que Carla percebia o tremor de suas mos.
        Num momento, ao envolver a cabecinha de Chip, as costas de sua mo esfregaram-se no mamilo rgido do seio de Carla.
        - Ahn... desculpe... - balbuciou ele, retirando a mo.
        - Ora, Toni... - sussurrou ela, sem saber dizer mais. 
        O tempo todo tinha observado aquela mo, cujas costas procuravam acarici-la enquanto a palma fingia alisar os plos do cachorrinho. E nada fizera para impedir 
a manobra.
        "Quem  esse rapaz?", pensava, tentando enxergar os olhos de Toni atrs das lentes dos culos. Alm delas, o que haveria? Aquele rapaz era to... Dedicado? 
Delicado? Muito mais! Por que ela nunca se aproximara dele? E por que ele se interessava tanto pela sua situao? Ah, tanta coisa estava acontecendo em sua vida, 
desde a manh anterior...
        O primeiro toque do telefone nem se completou e Toni j atendia.
        - Al? Sou eu, me... O qu? Tem certeza? Jia, me! - desligou e parecia iluminado ao voltar-se para a amiga. - Descobrimos, Carla!
        A menina agarrou-lhe o brao, ansiosa, ainda abraando Chip com a outra mo:
        - O qu? Descobrimos o qu?
        A ansiedade de Toni parecia ainda maior:
        - Seu pai no usou nenhum dinheiro roubado para comprar os remdios, Carla! 
        Os remdios saram de graa! O convnio mdico da escola abriu uma exceo e autorizou o Central a fornecer todos os medicamentos, pois foram pressionados 
pelo doutor Lercio! Minha me  demais, quando resolve descobrir alguma coisa: falou com a administrao do Hospital Central e telefonou para uma conhecida que 
trabalha para o convnio mdico do Cidinha. Acabou descobrindo que o doutor Larcio insistiu com os diretores do convnio em favor de sua me. Chegou a mandar uma 
carta ameaando contratar outro plano de assistncia mdica para os funcionrios da escola, se os remdios no fossem fornecidos!
        - Toni! Isso quer dizer que...
        - Quer dizer que seu pai no tinha o motivo que ele mesmo alegou para praticar o desfalque! No pode haver crime sem motivo! E, pelo menos que a gente saiba, 
ele no tinha outro motivo para precisar de muito dinheiro, tinha?
        -  claro que no, Toni. Mas ento...
        - Ento ele estava encobrindo algum ao confessar! Agora temos de descobrir duas coisas: quem  esse algum e por que seu pai assumiu a culpa no lugar dele!
        O estado de nimo de Carla estava bem diferente daquele que a atormentava desde o dia anterior. Sorriu para o amigo, que lhe trazia esperanas:
        - Voc est me saindo um belo detetive, Toni. Mas eu tambm sou meio detetive. Quer ver?
        - Voc est querendo gozar com a minha cara, ? 
        - No estou no, Toni. Quer ver como eu tambm sou capaz de deduzir coisas?
        - Quero, sim!
        - Sua me...- comeou Carla, com desafio na voz. - Teve de fazer planto de enfermagem essa noite, no teve?
        - Teve...
        - E quando voc acordou, hoje de manh, estava sozinho em casa, no estava?
        - Boa! Como  que voc descobriu isso tudo?
        - Elementar, meu caro Sherlock! Porque voc est com uma meia amarela e outra vermelha!
        
        
      12 - Visitas proibidas
         
        - Al? Sou eu, Don Peperone... A menina esteve aqui... Positivo. E dessa vez o homem aceitou falar com a filha... Estava com um rapazinho junto... De culos 
escuros... Negativo. No consegui ouvir o que o prisioneiro falou para os dois moleques... Pode deixar, continuarei de olho, Don Peperone... 
        Os dois estava calados h um tempo andando devagar.
        No falavam, mas ambos sabiam que toda a euforia das primeiras descobertas no parecia levar a nada. Como fazer seu Afonso dizer a verdade? Ele deveria ter 
um motivo muito forte para ter confessado e encobrir o verdadeiro culpado pelo desfalque. Como descobrir esse motivo?
        Carla gostaria de perguntar "o que faremos agora, Toni?", embora a qualquer um pudesse parecer estranho que ela estivesse sendo guiada por algum como ele. 
        Mas nada falou, pois sabia que o amigo estava fazendo a mesma pergunta a si mesmo.
        Chip j saltara de seu colo e corria  frente, "marcando" cada rvore e cada poste que encontrava.
        - Carla... - a mo de Toni tocou-lhe levemente o brao. - Seu pai falou com o Velho das alteraes nas contas do Cidinha! Tenho certeza. O professor Frederico 
sabia do desfalque, ou pelo menos j desconfiava dele quando sofreu o acidente. Aposto que ele sabe quem  o verdadeiro culpado pelo desfalque!
        - Pelo que papai disse, pode ser isso mesmo. Mas... 
        Toni tinha parado de andar. Suas sobrancelhas crispavam-se por trs dos aros dos culos. Ele estava concentrado e encontrara um caminho.
        - Como estar o Velho?
        - Bom, dizem que ainda est mal, na UTI do Metropolitano...
        - Estar consciente, Carla? Ser que a gente conseguiria falar com ele?
        - Falar com o Velho? Duvido! Quem est em terapia intensiva nos hospitais...
        - No pode receber visitas? Mas temos de tentar l. No temos mais nenhuma pista a seguir...
         O Metropolitano ficava muito longe. No bairro dos ricos. A me de Toni vivia dizendo que era um dos hospitais mais caros da cidade, embora, segundo ela, 
estivesse longe de ser um dos melhores. Um local onde o luxo e a hotelaria pareciam mais importantes do que a cincia.
        Carla telefonara para casa e tranqilizara a me, mentindo que ia almoar na casa de uma colega. Ao desligar, lembrou-se de dona Marta, me de Toni:
        - Ser que sua me pode nos ajudar, l no metropolitano?
        - No, Carla. Ela deve estar saindo de l agora. No tem nem tempo para almoar. Pega um nibus e corre para o Hospital Central, seu segundo emprego...
        "Vida dura... ", pensou Carla.
        O nibus levava um tempo para transportar os dois jovens at o Metropolitano.
        Chip parecia decididamente ter preferido o colo de Carla ao de Toni, e o rapaz sentia uma pontinha de inveja do cachorro. Para falar a verdade, sentia uma 
inveja danada!
        A manh j terminava quando desceram do nibus. Passava da hora do almoo, mas nenhum dos dois tinha dinheiro. S passes de nibus.
        - Hum, pelo jeito, esse hospital  pra quem pode, Toni. S tem carro importado...
        O saguo de entrada estava fresco, refrigerado, e a voz da recepcionista no "recepcionava" os dois com a mesma afabilidade que deveria oferecer a quem tivesse 
uma aparncia mais prspera:
        - O que desejam? Tm alguma consulta marcada com um oftalmologista?
        Toni no se perturbou com a secura daquela voz, nem com a bvia citao de um 
        oftalmologista. Sentiu que a moa estava fortemente perfumada. At demais para quem trabalha de manh, num hospital. Os cheiros da maquiagem pesada e do 
perfume barato misturavam-se ao leve odor de desinfetante que mantinha imaculado o hospital.
        - No. Ns queramos visitar um paciente. Professor Frederico Moura.
        A moa digitou alguma coisa no teclado a sua frente. Em menos de um minuto, tinha a resposta que os dois tanto temiam:
        - O paciente est na UTI. Visitas proibidas.
        - Mas  que ns somos do grmio do Colgio Cidinha Moura... - mentiu Toni. - Fomos encarregados de saber do estado do nosso diretor...
        - Condio estvel, diz o ltimo boletim mdico. 
        - Estvel como? Ele pode falar ou est inconsciente? - perguntou Carla.
        - Estvel quer dizer que ele continua do jeito que estava. E s os mdicos podem dar maiores detalhes.
        - Ser que ns poderamos falar com o mdico responsvel para saber que condio  essa? - insistiu o rapaz.
        - Vocs no so da famlia. E sou obrigada a pedir que saiam. No so permitidos animais no hospital.
        A pista tinha se demonstrado um muro de pedras. Intransponvel. Os dois amigos saram, frustrados. 
        Quase como uma pequena vingana pela sada forada dos dois, Toni comentou:
        - Coitada dessa mulher... Enche-se de maquiagem, emboneca-se toda, mas nem assim consegue ficar bonita... 
        Carla estranhou:
        - Ora, Toni! Como  que voc sabe que essa mulher  feia?
        - Ora, Toni, vrgula! Do meu gosto, essa recepcionista no . O que  que voc acha? Ela  feia ou no ?
        - Bom... para falar a verdade, ela  feia mesmo. Mas eu s no consigo entender como  que voc sabe que ela  feia!
        - Eu sempre sei quando uma mulher  feia ou bonita, Carla... - respondeu o rapaz com um sorriso misterioso. 
        A menina parou de andar e tocou-lhe o brao:
        - Ah, ? Ento me diga: eu sou feia ou bonita?
        O rapaz ficou srio por um instante. Por dentro, pensou: "Voc  a mulher mais linda do mundo, Carla... ", mas, da boca pra fora, o que saiu foi: 
        - Hum... at que voc no  das piores... 
        Carla deu-lhe um belisco:
        - Ah, seu danado!
        Toni comeava uma gargalhada quando Chip rosnou. Uma mo forte agarrava o brao do rapaz.
        - Muito bem, meninos. Vamos ter uma conversinha. 
        Era a voz do investigador Barbosa. O cheiro de chiclete mostrava que o outro, o tal Xavier, estava junto.
        
        
      13 - Almoando com a polcia
         
        "Acabamos de encontrar esse policial na delegacia...", pensava Toni. "Ser que esse cara nos seguiu at o hospital? Ou ter sido apenas coincidncia?"
        Os amigos estavam dentro de uma viatura, sentados no banco de trs. Toni sorriu. 
        Aquele era um carro comum, um Gol velho, com as velas falhando e com a segunda marcha arranhando. S no poderia dizer qual a cor do carro...
        "Gozado! Polcia no fala veculo nem carro, fala viatura. No fala sim nem no. S positivo ou negativo..." 
        Do lugar do motorista, vinha a voz de Barbosa:
        - Vocs dois se movimentaram bastante para uma manh s, no? O que queriam neste hospital?
        - Viemos... viemos visitar o professor Frederico... 
        - Isso eu sei. Mas, por que vieram visit-lo? O que tem a ver o acidente do diretor da escola com o desfalque que seu pai confessou, menina?
        O homem estava sendo direto, direto demais. Toni apertou o brao de Carla e falou:
        - Nada...  que... 
        Barbosa interrompeu:
        - Negativo, garoto! No precisa inventar desculpas. E nem ter medo da gente. S queremos conversar. O que vocs acham de um almoo? Ainda no comeram nada, 
no ? 
        - Desculpem se o restaurante no  de luxo, meninos. Mas vocs sabem como  salrio de policial, no sabem?
        Estavam sentados em uma mesa de um bar modesto, que servia refeies comerciais. Barbosa queixou-se do calor, embora para os dois convidados o tempo estivesse 
mais que agradvel. At um pouco friozinho. Mas, ainda assim, o policial suava. Afrouxou o n da gravata e tirou-a pelo pescoo, como se tira uma camiseta. 
        Amassou a gravata na mo, sem nenhum cuidado, e colocou-a no bolso do palet.
        O cheiro de gordura era forte, mas o de tempero era melhor, e Toni ps-se a devorar com apetite o bife a cavalo e tomates.
        Carla mal tocou na comida. Partiu o bife e ficou dando-o em pedacinhos para Chip.
        Xavier quase no falava. Parecia ter mania por chicletes e abriu um novo tabletinho no final do almoo. 
        Barbosa raspava o prato com um pedao de po e procurava fazer suas perguntas com jeito:
        -  natural que voc esteja preocupada com seu pai, menina, muito natural... Mas eu s no entendi por que vocs tentaram visitar o professor Frederico logo 
depois de sarem da delegacia...
        - Bom... - Toni tentava desviar a curiosidade do policial. -  que a gente anda preocupado com o professor Frederico, depois daquele acidente...
        Barbosa no aceitou a desculpa:
        - Acho estranho que toda essa preocupao com o professor Frederico aparea justamente agora. A priso do seu Afonso deveria ser a nica coisa com o que 
vocs estariam se preocupando, no ? Ou pelo menos voc, Carla...
        - Meu pai  inocente, Barbosa... Temos de provar isso! Como  que a gente pode ajudar? O que voc est querendo saber?
        O policial respondeu com uma pergunta:
        - Qual  a ligao que vocs imaginam entre o acidente do professor Frederico e a priso de seu Afonso? 
        Toni pensou um pouco. No estaria se arriscando demais? Afinal de contas, por que estava se metendo a fazer o papel da polcia?
        - Esses dois me parecem muito espertinhos, Barbosa! - comentou Xavier, mascando o chiclete de boca aberta.
        Toni segurou a mo da amiga. No havia razo para esconder suas suspeitas da polcia. O nico receio talvez fosse o de receber uma bronca enorme por estarem 
metendo o nariz onde no eram chamados.
        - Seu Afonso  um homem bom, Barbosa, um homem honesto. Nem eu, nem Carla, nem qualquer pessoa do Cidinha pode acreditar que ele cometeria qualquer crime. 
E muito menos que confessaria esse crime.
        - Bom, se ele confessou,  porque  culpado, no acha, garoto? - comentou Xavier.
        Carla falou, nervosamente:
        - Ele  inocente! Confessou para proteger algum!
        - No diga! - gozou Barbosa. - Seu Afonso confessou para encobrir o verdadeiro culpado? E quem  que ele est encobrindo?
        - No sabemos - respondeu Toni. - Mas voc ouviu nossa conversa com ele. 
        Lembra-se que seu Afonso disse que havia erros grosseiros de contabilidade nas alteraes que o tal criminoso cometeu?
        - Lembro sim, Toni.
        - Desculpe eu estar me metendo, Barbosa, mas por que um contador experiente como ele cometeria erros grosseiros, justo para dar um desfalque nas contas da 
escola? E por que ele mesmo convocaria os auditores para que eles descobrissem as alteraes?
        - Ser que ele queria ser descoberto? - interveio Xavier.
        - Podemos ver isso por outro ngulo, Xavier - raciocinou Barbosa. - Cometendo erros que um contador experiente no cometeria, ele estava afastando qualquer 
suspeita em relao a ele!
        Toni no gostou do tal "outro ngulo" da questo: 
        - Se o seu Afonso for mesmo culpado, talvez essa teoria esteja certa. Mas que tal pensarmos do modo mais direto? Quem deu o desfalque  algum que no entende 
de contabilidade!
        Houve uma pausa. Os policiais avaliavam as palavras daquele rapaz, meio espantados com sua determinao. Foi Barbosa quem retomou:
        - Muito bem, garoto, muito bem. Acho que posso ser franco com vocs. O caso do seu Afonso no  meu. Mas, depois que ouvi sua conversa com ele, fui dar uma 
olhada no processo. O crime  de "apropriao indbita". Ningum fica preso por um crime como esse antes do julgamento.
        - No fica?! - espantou-se Carla. - Mas, ento, por qu...?
        O investigador suspirou:
        - Esta foi uma priso arbitrria, Carla. Coisa do delegado Mendes, que sempre quer ser mais realista do que o rei. Mas ele vai ter de soltar o seu pai no 
mesmo instante em que algum advogado apresentar um habeas corpus.
        - O doutor Larcio disse que os advogados iam entrar com esse pedido logo - informou Toni. - Ser timo quando ele sair da cadeia, mas isso no basta para 
ns. Ele no merece essa acusao! Mas o que quer dizer habeas corpus mesmo, Barbosa?
        -  uma ordem judicial para assegurar o direito de ir e vir de algum que esteja sendo injustamente tolhido desse direito.  o caso do seu Afonso. Um acusado 
de apropriao indbita no representa nenhum perigo  sociedade. Por isso, mant-lo preso  um absurdo. Nenhum juiz concordaria com a priso preventiva do seu Afonso 
se o Mendes fizesse a besteira de pedi-la.
        - Eu fui com o Mendes prender seu Afonso - acrescentou Xavier. - No perguntei nada, nem quis que ele notasse que eu estava surpreso por ele querer fazer 
aquela priso pessoalmente.
        Barbosa continuou:
        - Tudo isso me deixou com a pulga atrs da orelha, meninos. Decidi me meter no caso e acabei de ler todo o processo, at o relatrio dos auditores.  por 
isso que eu quero saber qual a ligao entre esse desfalque e a visita de vocs ao Hospital Metropolitano, tentando uma entrevista com o professor Frederico.
        Toni estava sentindo a esperana renovar. Aqueles dois policiais estavam do lado deles!
        - Obrigado pelo apoio, Barbosa. A gente estava sozinho demais com esse problema. S o que eu podia fazer era pensar. Lembra-se que seu Afonso tentou fugir 
da conversa quando eu perguntei se o Velho sabia do desfalque?
        - Continue, Toni.
        - Naquele momento, eu fiquei achando que o desfalque foi praticado antes do acidente do professor Frederico. E, pelo jeito do seu Afonso, tenho certeza de 
que o professor sabia do que estava acontecendo! Por isso, pensamos que ele poderia nos dar alguma pista...
        Barbosa riu, cada vez mais surpreso:
        - Muito bem de novo, Toni! Se o Velho sabia ou no, no sabemos, mas a verdade  que os desfalques vinham sendo praticados h tempos, desde o comeo do ano, 
de acordo com o relatrio dos auditores. Voc adivinhou isso, mesmo sem ver os relatrios. Muito bem!
        - Mas o Velho no pode dar nenhuma pista, meninos - informou Xavier, bafejando o odor adocicado do chiclete no rosto de Toni. - Tentamos falar com ele, mas 
ele est mesmo muito mal, com todas as visitas proibidas.
        - Mas  nossa nica pista! - Carla tentou objetar. - Temos de...
        - Negativo! Vocs j foram longe demais, meninos - cortou Barbosa. - No h nada mais que vocs possam fazer. Fiquem tranqilos e vo para casa. Deixem esse 
trabalho com os profissionais.
        Desta vez foi Carla quem apertou o brao de Toni, tomando uma deciso:
        - Diga uma coisa, Barbosa: voc acredita que meu pai  inocente?
        - O que adianta eu acreditar ou no? Ele confessou, Carla!
        - Mesmo assim, Barbosa: voc acredita na inocncia dele?
        O corpulento policial demorou um pouco mas respondeu:
        - Positivo. Mas no posso provar nada.
        - Ento acho que a gente pode ajudar - continuou Carla. - Todo crime precisa de um motivo, no ?
        -  claro. S que nesse caso o motivo  mais do que razovel: seu pai precisava de dinheiro, de muito dinheiro, para os remdios de sua me. Um bom motivo, 
tenho de admitir, mas...
        - Mas esse motivo no existe! - declarou a menina, com firmeza.
        - Como?!
        - Descobrimos que o doutor Larcio pressionou o convnio mdico que atende os funcionrios do Cidinha e os diretores cederam. Mame recebeu os remdios pelo 
convnio! Meu pai no tinha nenhum motivo para praticar o desfalque!
        
        
      14 - Michelngelo, Beethoven, Dali e Caetano
         
        A conversa com os policiais tinha se alongado. Barbosa, com toda a calma, foi arrancando uma descrio completa da situao do Cidinha. Ouviu sobre a morte 
da professora Vernica, sobre a introduo dos dois novos diretores, Larcio e Gustavo, e sobre as divergncias entre Gustavo e o Velho a respeito das inovaes 
no colgio.
        - Se no foi seu Afonso quem deu esse desfalque, quem foi, Barbosa? - tinha perguntado Toni, quando saam do restaurante. - A nica forma de provar que seu 
Afonso est encobrindo algum  encontrar esse algum!
        - Esse  o meu trabalho, garoto...
        Os dois amigos foram levados de volta ao Cidinha, a bordo do velho Gol, ouvindo a tosse das velas e o arranhar da segunda marcha.
        - E lembrem-se, garotos - advertiu Barbosa, ao despedir-se. - Tratem de cuidar de suas vidas e deixem o problema conosco!
        - Est bem, Barbosa...
        O policial entrou novamente no carro e bateu a porta. Carla ficou vendo o Gol distanciar-se. De repente, notou alguma coisa na calada:
        - Olhe, Toni: a gravata do Barbosa caiu do bolso dele. Arrependeu-se de ter dito olhe e pegou a gravata do cho.
        - Bom, se a gente se encontrar de novo, eu devolvo. Puxa, mas que gravata ensebada!
        Dobrou-a e guardou-a no bolso de trs do jeans.
        A me de Carla j estava informada de que a flha "passaria a tarde" com uma colega e dona Marta s chegaria do Hospital Central depois das nove da noite. 
        Tinham tempo. Estavam exaustos, mas Toni nem sonhava em seguir o conselho dos policiais.
        - Precisamos esperar at as seis horas. Vamos  biblioteca, Carla...
        Os dois sentaram-se numa das mesas. Carla, a pedido de Toni, tinha escolhido alguns livros de arte.
        - Por que esses livros, Toni?
        - Vamos dar um tempo, Carla - explicou o rapaz, sem responder diretamente  pergunta. - Os funcionrios da administrao saem s seis. Quero encontrar com 
o Tadeu na sada. Quem sabe, com jeitinho, a gente no consegue saber quem teria acesso aos dados do computador da administrao? Se tivermos essa lista completa, 
basta descobrir quais pessoas dessa lista no conhecem contabilidade. Nosso homem, ou nossa mulher,  um desses, pode estar certa! No basta saber que seu pai no 
praticou o desfalque. Precisamos descobrir quem  o culpado!
        - Est bem, mas temos ainda mais de duas horas at as seis. Ento me diga: por que voc pediu para eu retirar livros de arte?
        Toni suspirou:
        - Eu adoro arte, Carla. No tenho nenhum problema com msica e dana. Acompanho at mesmo teatro, cinema e televiso. Acho que os dramaturgos escrevem peas 
para pessoas como eu, porque d pra entender tudinho! Eu s no consigo nada  com a pintura...
        Carla sorriu. Deveria ter se aproximado daquele garoto h mais tempo.
        - Eu adoro msica, Toni. Clssica ou popular. Estudo piano h seis anos.
        -  mesmo? -  claro que ele sabia disso, como sabia tudo que dissesse respeito a ela, mas fingiu que aquilo era uma novidade. - timo, pois msica  o meu 
forte. No sei o que faria sem ela ou sem meu teclado... 
        - Voc toca teclado?
        - Desde pequeno. Acho que vou ser msico profissional...
        - Ou detetive!
        - Prefiro a msica...
        - Est bem... quer dizer que voc no tem idia do que seja uma cor?
        - Claro que tenho! Sei perfeitamente que uma manga  amarela, por exemplo.
        - Como pode saber isso?
        - Manga tem gosto de amarelo, ora essa!
        - S voc mesmo, Toni!  que com quadros a coisa fica mais difcil, no? Mas eu tenho um modo de fazer voc sentir a pintura...
        Carla comeou a folhear os livros de arte. Descrevia cada quadro comparando o impacto que sentia neles com o efeito de alguma msica:
        - Veja, Toni: este  Claude Monet. Esta paisagem  como o movimento "Outono", de "As quatros estaes", de Vivaldi. No d pra ouvir perfeitamente este quadro? 
Voc conhece Vivaldi?
        - Claro...
        - Este aqui  Gainsborough. No gosto muito.  arrogante. Parece "Pompa e circunstncia", do Elgar...
        - Aposto que vo tocar "Pompa e circunstncia" aqui no Cidinha, na hora da entrega dos nossos diplomas...
        - Aqui est: o detalhe da "Criao de Ado", do Michelngelo. Acho que o pobre teve de esperar sculos, at que Beethoven compusesse sua sexta sinfonia, 
a "Pastoral".  exatamente esta pintura!
        -  forte, hein?
        - Aqui est Picasso! Isso  rock puro! Ele torce a imagem de todos os lados, como o rock...
        E Toni foi "vendo" os quadros. Sentiu as paisagens do Mississpi lembrando-se dos spirituals, "viu" Goya ao som de castanholas, entendeu a tristeza de Van 
Gogh na melodia de Chopin, curtiu Portinari comparando seus retirantes com "Disparada", de Geraldo Vandr...
        - No concordo. Acho que "Disparada"  mais "Grande serto: veredas", do Guimares Rosa.
        - Voc leu aquele calhamao, Toni?
        - Tudo isso est em braile, l na biblioteca - sentiu-se um pouco envergonhado, pelo fato de omitir que no tinha conseguido chegar ao fim daquele livro. 
- E pe calhamao a, Carla! Um livro em braile tem quatro vezes mais pginas do que o mesmo livro em tinta... 
        Carla abriu outro livro:
        - Salvador Dali!  Caetano Veloso, purinho!
        - Ah, que  isso, Carla? O que  que tem a ver o Caetano com aquele catalo maluco?
        - Sei l, Toni.  isso que eu sinto. Na certa outra pessoa compararia cada quadro desses de um modo diferente. Esse  s o meu modo de ver tudo isso...
        "Que modo, lindo, Carla... Ah, eu queria ver o mundo atravs dos seus olhos, para sempre..."
        - E o Chico Buarque? - perguntou Toni, afastando a emoo.
        - Ora, o Chico  exatamente a arte popular brasileira.  Di Cavalcanti,  Chico da Silva e  Mestre Vitalino. S que  mais culto... Mais ou menos como se 
Mestre Vitalino esculpisse suas figuras em mrmore...
        - As esculturas desse eu conheo. J me deixaram pegar, l no museu...
        Recordando as msicas de que gostavam, os dois navegaram pelo mundo da pintura, de mos dadas. Juntos, estavam chegando  concluso de que as mesmas emoes 
humanas podem ser transmitidas por cores, palavras, sons, movimentos...
        S que Toni no conseguia encontrar palavras, nem sons, nem cores, nem movimentos para transmitir a emoo que sentia naquele momento, com aquela garota 
to pertinho...
        Foram interrompidos por uma bedel:
        - Toni! O doutor Larcio quer que voc v at a diretoria.
        O rapaz despertou de sua viagem artstica e largou a mo da amiga.
        -  diretoria, dona Lcia? Est bem. Vamos, Carla. 
        - No, Toni - informou dona Lcia. - Ele disse que quer falar s com voc.
        - Est bem. Que horas so, Carla? 
        - Cinco e quinze.
        - Me espere aqui. J volto.
        Maternalmente, dona Lcia levou-o pelo brao para a diretoria. No querendo ofend-la, Toni deixou-se levar. Dona Lcia era assim mesmo: vivia procurando 
mostrar carinho, como se fosse a mezona de todo mundo.
        "Imagine se eu preciso de algum para me guiar pelo Cidinha! Ora!" 
        
        
      '15 - Mapas sem pauzinho
         
        A bedel deixou-o dentro da diretoria e saiu, fechando a porta.
        Toni notou que a sala estava vazia. Apurou o ouvido. Talvez o diretor estivesse no lavabo,  direita. No vinha nenhum rudo de l, porm.
        "Vou ter de esperar... O que  que o doutor Larcio quer de mim? Tomara que ele no demore. Quero falar com o Tadeu. E tem de ser hoje!"
        Andou na direo da grande mesa que j fora ocupada por cinco membros da famlia Moura. O doutor Larcio era o sexto.
        Avanando para o tampo, suas mos deram com uma srie de rolos compridos de papel. Deveriam ser mapas.
        "Gozado! Mapas sem pauzinho... Como  que os professores de Geografia vo pendurar esses mapas na lousa?", pensou, lembrando que para ele aqueles professores 
dispunham de um globo terrestre com os continentes em relevo.
        Mas, ao tatear os rolos, as costas de sua mo esquerda empurraram a pilha e os mapas rolaram da mesa para o cho.
        "Droga!"
        Abaixou-se e ps-se a tatear o tapete recolhendo o estrago que produzira sem querer.
        Os mapas tinham rolado para a esquerda, at uma estante.
        Foi encontrando e colocando cada um debaixo do brao.
        Ao tatear a beirada da estante, junto ao tapete, sentiu um ventinho nas costas da mo.
        A porta de entrada ficava atrs dele e a janela  sua frente. E a porta do lavabo estava do seu lado direito. 
        "De onde vem esse ventinho?"
        Levantou-se e voltou para a mesa, tentando rearranjar os mapas do modo que estavam.
        De repente, a porta abriu-se atrs de si: 
        - Ol, Toni.
        - Oi, doutor Larcio... O senhor mandou me chamar? 
        - Eu pedi para falar com voc, Toni.  diferente. O Cidinha agora  um colgio democrtico, no notou?
        - Doutor Larcio, me desculpe... Eu estava esperando pelo senhor e sem querer deixei esses mapas carem no cho. Nem sei se consegui recolher todos...
        - Conseguiu, sim, Toni. Esto todos na mesa, como estavam, no se preocupe. Mas sente-se, sente-se!
        Ia empurrar a cadeira de visitas para o garoto, mas Toni j tinha estendido a mo para ela, aceitando o convite.
        - Ah, eu devia jogar tudo isso fora! - comentou Larcio em voz baixa, como se falasse consigo mesmo. Toni ouviu o diretor recolher a pilha de rolos de papel 
e guard-la em um armrio.
        - O que o senhor queria, diretor?
        - O investigador Xavier me ligou agorinha mesmo. Contou que voc est procurando alguma forma de ajudar seu Afonso.
        -  que eu...
        - Isso  louvvel, Toni, muito louvvel. No estou criticando voc por querer ajudar sua namorada. Carla  sua namorada, no ?
        - No!  s minha amiga...
        - Pois voc faz muito bem em apoiar sua amiga. Mas fique sossegado: a escola est pagando os melhores advogados para defender seu Afonso. Ele no est sozinho.
        - J entraram com o tal habeas corpus? Ele vai ser solto? 
        - Infelizmente ainda no. Houve complicaes e ainda no foi possvel entrar com o documento. Mas, no mais tardar, at sbado ele estar junto da famlia.
        - At sbado? Tudo isso?
        O jovem diretor colocou a mo no ombro do rapaz. - Mas por que voc queria ver meu pai?
        Toni segurou um pouco a respirao. "Voc pode fazer tudo o que quiser nesta vida! ", dizia sua me. Mas ele se sentia cansado. E o doutor Larcio era o 
melhor amigo dos alunos do Cidinha. No havia nenhuma razo para esconder-lhe qualquer de suas suspeitas:
        - Se o senhor falou com o investigador Xavier, sabe que estivemos com seu Afonso, no ? E ele, muito perturbado, falou umas coisas que...
        - O que  que ele disse?
        - Ele deu a entender que o professor Frederico sabia dos desfalques, antes do acidente...
        -  mesmo? E que mais ele disse?
        - Uma coisa que... que eu no consigo entender, doutor Larcio. Ele confessou mais uma vez que cometeu o desfalque porque precisava de dinheiro para os remdios 
de sua esposa. Mas ns descobrimos que o senhor insistiu tanto com o convnio, que o diretores puseram os tais remdios  disposio da dona Clotilde, sem nenhum 
gasto para a famlia. Por que seu Afonso cometeria o desfalque se no precisava mais do dinheiro para os remdios?
        - Seu Afonso no sabia disso, Toni. O convnio s concordou em fornecer os remdios ontem, depois da priso dele.
        - Mas os investigadores nos disseram que os desfalques comearam aos poucos, desde o incio do ano. Se seu Afonso no gastou nada com os remdios, onde est 
esse dinheiro?
        O doutor Larcio fez uma pausa.
        "Que menino inteligente! O que ele no poderia fazer na vida, se fosse igual aos outros?"
        - Voc tem razo, Toni. Essa histria est muito longe de ser esclarecida.
        - E tem mais uma coisa... 
        - Que coisa  essa?
        - Seu Afonso, ao despedir-se, l na cadeia, consolou a filha, dizendo que dona Clotilde ficaria boa e que ela, Carla, continuaria com a bolsa de estudos...
        - Como?
        - Isso mesmo. O que tem a ver a bolsa de estudos da Carla com o desfalque?
        - Ora, Toni! Carla  uma das melhores alunas da escola. Sua bolsa de estudos est garantida at a formatura. E ela at paga, de algum modo, para estudar. 
No centenrio do Cidinha, por exemplo, Carla vai dar um recital de piano durante as comemoraes. Voc sabia que ela  uma tima pianista?
        - Sim.
        - Seu Afonso deve ter falado misturando idias porque estava sob presso. Mas eu concordo com voc que...
        Nesse momento, a porta se abriu e algum entrou na sala.
        - Larcio, precisamos conversar sobre o... Ah, esse garoto est aqui, ?  o bisbilhoteiro, que eu peguei outro dia! 
        Era Gustavo, com seu pouco tato para lidar com alunos. 
        - Oi, Gustavo. Eu estava conversando com o Toni aqui. Ele  amigo da filha do seu Afonso e os dois andam querendo esclarecer esse negcio do desfalque...
        - Bisbilhoteiro, como sempre!
        - Calma, Gustavo. Todo mundo preocupado com a priso do seu Afonso!
        - Eu estou preocupado  com o monto de dinheiro que desviaram das contas do colgio. A situao financeira j no era das melhores e...
        - Espere um pouco, Gustavo. Acho que ns no deveramos discutir problemas internos do Cidinha na frente de um aluno. Mas veja como esse menino  especial: 
com a filha do seu Afonso, tentou fazer uma visita ao papai, na UTI do Metropolitano...
        - Ah, ? - Gustavo aproximou-se de Toni, quase encostando o dedo em seu nariz. - Pois olhe aqui, garoto: a situao de papai  to grave, que nem eu posso 
fazer uma visita a ele. Fui examinado e disseram que eu tenho uma virose incubada e no sei o que mais. Por isso, poderia contaminar os doentes graves daquela ala, 
se entrasse l. E os mdicos acharam melhor proibir todas as visitas, para no agravar o estado dele. Nem Larcio tem ido  UTI. Meta-se com a sua vida! A sade 
de papai  problema nosso!
        Larcio tomou a palavra, conciliador:
        - No fale assim com o rapaz, Gustavo. Ele s est querendo ajudar! Oua, Toni: no vai ser possvel perguntar nada ao papai. Ele est muito mal. Dizem que 
s vezes balbucia alguma coisa, mas ainda no recuperou a lucidez. Bom, isso de acordo com o ltimo boletim mdico, porque nem eu estou indo l, para garantir que 
no haja risco de levar alguma bactria para dentro da UTI e piorar ainda mais a situao de papai. Voc compreende, no ?
        - E agora trate de cair fora, garoto - encerrou Gustavo. - O diretores tm mais o que fazer!
        - J estou indo. Que horas so, doutor Larcio? 
        - Cinco para as seis.
        - Obrigado.
        
        
      16 - Voc pode fazer tudo...
         
        Toni saiu quase correndo pelo corredor. Carla estava na porta da biblioteca, esperando-o. Com uma frase curta, procurou acalm-la contando o que o diretor 
falara sobre as providncias que os advogados tomariam. Passaram na frente da sala de contabilidade e puderam ouvir a voz de Tadeu, falando com algum.
        Saram para a calada. Carla olhou o reloginho de pulso: 
        - Seis e cinco. Logo o Tadeu aparece.
        Os funcionrios do Cidinha foram saindo, um a um.
        - Cad o Tadeu?
        - Ainda nada, Toni...
        Seis e meia. Carla viu todas as luzes do Cidinha apagarem-se. Aquele colgio no tinha cursos noturnos.
        - Voc tem certeza de que o Tadeu no saiu, Carla? No  possvel tanta demora...
        -  claro que tenho certeza, Toni. Parece que no tem ningum mais na escola.
        Olhe, o vigia est trancando a porta. Vamos falar com ele!
        Toni aceitou a liderana da menina e acompanhou-a:
        - Boa noite, seu Joo.
        - Boa noite, menina. O que est fazendo aqui, a esta hora?
        -  que... sabe? Eu esqueci meu fichrio na biblioteca e... 
        - Sinto muito, mas no posso deixar ningum entrar. Vai ter de esperar at amanh para pegar seu fichrio.
        - Mas no tem ningum na escola fazendo sero? 
        - Ningum, menina. Todo mundo foi embora.
        - Nem na contabilidade?
        - A contabilidade est s escuras. Acabei de passar por l. "Ai, perdemos o Tadeu! Carla deve ter se distrado!", pensou Toni, sem coragem para criticar 
a desateno da amiga. 
        Dona Clotilde estava sendo cuidada pela irm. Carla telefonou novamente para a me e mentiu de novo. Desta vez a mentira era que dormiria na casa da colega 
com quem estava estudando e que no tinha telefone.
        - No se preocupe, mame...
        - Est bem, filha. Hoje eu estou me sentindo bem melhor. E sua tia vai dormir aqui.  at melhor mesmo voc ficar com sua amiga para distrair-se desse problema 
to grande...
        - O doutor Larcio disse que os advogados vo tirar o papai da cadeia logo, me...
        Carla desligou. Tinha aceitado o plano de Toni. Era uma loucura, mas ela estava disposta a cometer qualquer loucura com aquele rapaz.
        Pegaram o nibus e foram para a casa de Toni. Mais uma vez, Chip preferiu o colo da menina.
        - Carla, perdemos o Tadeu. Agora s mame pode nos ajudar.
        Eram mais de sete e meia quando chegaram. Carla j estava cansada de espantar-se com o amigo: ele sabia em qual ponto deveriam descer do nibus e guiou-a 
pela rua sem erro, levando-a com facilidade para casa. Bom,  verdade que Chip ia na frente, e os latidos alegres do cachorrinho ajudavam muito, como se fossem uma 
lanterna sonora a gui-los na escurido.
        O rapaz morava em uma casa modesta, geminada dos dois lados. Havia um pequeno jardim de margaridas e gernios. 
        Toni esquentou o jantar e, com Chip cochilando a seus ps, tentou distrair a menina com o teclado:
        - Esta aqui eu mesmo compus, Carla. O que voc acha?
        Mas a menina estava cansada, tensa, e o anoitecer s fazia com que ela pensasse no pai, l na cadeia, partilhando uma cela imunda com marginais.
        - Por culpa de quem meu pai est preso, Toni?
        - No adianta pensarmos nisso agora. Vamos esperar minha me. Preciso dela para o prximo passo. Agora oua esse acorde novo que eu bolei. O solo passa para 
a mo esquerda enquanto a direita faz isso aqui. Oua...
        Carla fingiu que se distraa, at ouvir a chave na porta.
        Eram nove e quinze.
        Marta no conhecia a menina e surpreendeu-se: 
        - Oh, Toni! Temos visitas?
        - Me, precisamos de voc. Desesperadamente!
        Enquanto jantava, Marta ouviu o plano do filho. 
        - No tem risco nenhum, me. Voc trabalha no Metropolitano de manh. s vezes tem de dar planto noturno na enfermagem. Ningum vai achar estranho voc 
aparecer por l esta noite. Acho que no vai ter dificuldade de me botar l dentro. Afinal, tudo o que eu quero  entrar um instante no quarto do professor Frederico.
        - Entrar l? O que um homem doente pode fazer pelo seu Afonso?
        Toni fez uma pausa e soltou a afirmao que tinha escondido at de Carla:
        - Ns dois temos certeza que o Velho sabia quem estava desviando dinheiro do Cidinha. Por isso, estou quase certo de que a queda das escadas no foi um acidente!
        - Como?! - espantou-se a menina.
        - Posso estar errado, Carla. Mas, se o Velho sofreu uma tentativa de assassinato, o nome da pessoa pode estar em seus lbios. Se ele viu quem tentou mat-lo, 
a primeira palavra que dir, ao despertar, ser o seu nome. 
        Marta sorriu:
        - Ah, Toni! Isso s acontece nos filmes!
        - No temos mais nenhuma pista a seguir, me suplicou o rapaz. - Se o Velho puder me ouvir, talvez eu descubra quem  o culpado pelo desfalque. Se ele disser 
somente um nome, apenas uma palavra, talvez esse mistrio todo esteja esclarecido. Mas, se ele no puder falar nada, eu saio e ns voltamos para casa...
        Marta estava exausta. Tinha cumprido rduo expediente em dois hospitais e varado a noite de planto no Hospital Central. Mal tinha conseguido cochilar. S 
no sabia como negar alguma coisa a seu filho e quela menina to bonita que lutava pela liberdade do pai...
        Ela mesma no vivia dizendo que seu filho poderia fazer qualquer coisa na vida, tudo aquilo que os outros podem fazer? Como poderia agora desestimular Toni, 
justo quando ele estava empenhado em fazer algo grande, algo at maluco demais?
        "Bem, vou entrar de sola nessa loucura!", decidiu-se Marta.
        - Est bem, Toni. Vamos fazer o seguinte...
         
        
      17 - Um careca na UTI
         
        Da casa de Toni, eram necessrios dois nibus para chegar ao Hospital Metropolitano. O segundo estava quase vazio quela hora da noite.
        O cansao tomava conta de todos, e Chip aproveitava todos os momentos para dormitar no colo de Carla. Marta, Carla e Toni quase no falaram durante a viagem. 
        A menina apertava a mo do amigo com fora. "Tem de dar certo!", pensava Toni, o tempo todo. 
        Quando desceram do nibus, era quase meia-noite. Marta, ainda com seu uniforme de enfermeira, adoraria ter tomado um chuveiro e cado na cama, mas agora 
metia-se numa aventura como aquela. O que ela no faria por Toni? Respirou fundo o ar frio da noite e guiou os dois para os fundos do hospital.
        De longe, avistaram uma porta isolada.
        - Fiquem aqui, os dois. Vou entrar e volto logo quando o caminho estiver livre.
        Tinha sido combinado que Carla ficaria longe, escondida no escuro, controlando com afagos a excitao de Chip, enquanto Toni entraria no hospital, logo que 
a me o chamasse.
        Menos de dez minutos depois, s Toni conseguiu ouvir o assobio baixinho.
        -  mame. Vou l, Carla. Me espere. Vai dar tudo certo...
        - Ai, Toni...
        A mozinha de Carla pegou a nuca de Toni e puxou sua cabea para baixo. Beijou-o sofregamente nos lbios. - Agora v, querido. Salve o meu pai...
        Com a bengala e seu senso de direo, Toni caminhou rpido para o local de onde viera o assobio. Estava quase cambaleando sob o impacto do beijo quando entrou 
pela porta onde sua me o esperava. 
        - J subi at o andar da UTI, filho. Eles deixaram um enfermeiro particular de guarda, na porta do quarto do professor Frederico. Eu tenho um plano para 
afast-lo de l...
        "Carla diz que eu sou um detetive perfeito..." pensava o garoto. "Acho que tenho a quem puxar..."
        - Est frio pra ficar pelado, me...
        Estavam em um quartinho cheio de materiais de limpeza, que ficava logo depois da porta por onde haviam entrado. De acordo com o combinado, Toni tirou toda 
a roupa e vestiu uma camisolinha verde de doente. Marta tirou-lhe os culos escuros e fez dois enormes curativos em seus olhos. Pronto! Ele estava um paciente perfeito 
da oftalmologia.
        Toni sentou-se na cadeira de rodas que a me tinha conseguido e l foram os dois pelo corredor.
        Marta empurrou a cadeira de rodas para o elevador. No havia ningum dentro dele.
        Chegaram ao andar da UTI. Saram do elevador e Marta encostou a cadeira em um canto, escondendo-a do ngulo de viso de quem viesse pelo corredor. Seguiu 
para a prxima fase do plano: calcular para o filho a distncia at a unidade onde estava o Velho. Voltou logo em seguida e abaixou-se junto ao ouvido do filho:
        - So quatro passos para a frente. Vire  direita e ande trinta e um passos pela parede da esquerda. S vou conseguir trs ou quatro minutos para voc. Seja 
rpido, Toni!
        "Dona Lurdes me mataria, se soubesse que est sendo usada... Mas  por uma boa causa", pensava ela na doente ranzinza que ficava na unidade do final do corredor. 
Dona Lurdes era sua responsabilidade durante as manhs. Estava bem melhor e deveria ir para um quarto particular no dia seguinte. Mas, na medida em que melhorava 
de sade, piorava de humor. "Afinal de contas, uma troca extra de curativo no chega a ser uma conduta antitica para uma enfermeira..."
        Pegou no colo do filho a bandejinha que havia preparado e caminhou de volta pelo corredor. Parou ao lado do enorme enfermeiro, que lia um jornal sentado 
em uma cadeira na frente do quarto do professor Frederico.
        - Ei, voc! Preciso de sua ajuda.
        O enfermeiro levantou os olhos do jornal, com desdm:
        - Est falando comigo?
        - Com voc mesmo. Tenho de trocar o curativo da dona Lurdes, do 712. Ela  pesada demais e preciso de ajuda. 
        O homem sorriu, com desprezo:
        - Ora, voc que se dane!
        - Escuta aqui: voc no  enfermeiro? 
        - Eu? Eh...  claro que sou...
        - Ento no quer que eu v chamar a chefe da enfermagem, no ?
        O homem bufou e levantou-se, colocando o jornal sobre a cadeira.
        - T bom... o que eu tenho de fazer? 
        - Venha comigo.
         Toni ouviu os dois se afastando e levantou-se da cadeira de rodas no mesmo instante. Sentia um frio danado dentro daquela camisolinha, mas no podia preocupar-se 
com isso. Apoiou-se na parede e contou rigorosamente os passos, andando o mais rpido que podia. Trinta e um passos depois, sua mo pousou na folha de uma porta.
        Empurrou-a e entrou no quarto, fechando a porta atrs de si.
        A me havia explicado detalhadamente a disposio dos mveis nas unidades da terapia intensiva e logo ele estava ao lado da cama.
        Ouvia o respiradouro ligado e os bips dos aparelhos de monitoramento do paciente.
        Curvou-se e falou, bem baixinho:
        - Professor Frederico, o senhor pode me ouvir?
        S o som cavernoso do respiradouro artificial respondeu  pergunta.
        - Professor Frederico. Sou um aluno do Cidinha. Preciso falar com o senhor...
        Sua mo encontrou o brao do paciente. Estava engessado.
        "O coitado deve estar todo coberto de gesso, depois daquela queda..."
        - Professor... pode me ouvir?
        Sua mo percorreu o gesso do brao e o garoto abaixou-se, procurando falar no ouvido do homem, imvel na cama.
        Tateou pelo travesseiro e sua mo tocou a cabea do paciente no momento em que procurava falar-lhe ao ouvido.
        "Meu Deus, o que  isso?"
        Seu corao disparou diante do que acabara de descobrir. Por um momento, perdeu a presena de esprito. 
        "O que  isso, meu Deus, o que  isso?"
        Seu corao acelerou-se, na mesma medida em que os bips do monitor foram se tornando mais espaados. De repente, dali s saa um fiuuuun contnuo.
        Ele sabia o que aquilo significava. O homem acabara de morrer...
        "O que  que eu vou fazer?"
        Era a primeira vez que tomava contato direto com uma morte e Toni ficou esttico, tremendo feito vara verde. Sua distrao foi fatal. Os minutos transcorreram 
e a porta do quarto abriu-se atrs de si:
        - Ei, o que est fazendo aqui?
        Uma mo que tinha a mesma brutalidade da voz agarrou-o pelo brao.
        - Um moleque? Que histria  essa? 
        Outra voz entrou no quarto:
        - Largue esse menino!  meu paciente da oftalmologia. - Era a voz de Marta, que agora falava com o filho. - Voc ficou preocupado, queridinho? Eu no disse 
que ia demorar s um minuto? Venha, querido!
        O enfermeiro continuava furioso:
        - Ningum pode entrar neste quarto! Eu devia... 
        - Voc devia  ficar quietinho. Esse pobre garoto acabou de sofrer duas operaes de descolamento de retina. Deve ter tentado me encontrar, tadinho... Voc 
devia ver que olhos lindos ele tem por trs dessas bandagens... Venha comigo, querido...
        A voz do enfermeiro acalmou-se um pouco:
        - Ele no pode enxergar, ?
        - E como  que podia enxergar com essas bandagens sobre os olhos, seu burro?
        Toni ouviu uma risadinha do brutamontes.
        Voltaram apressadamente para o quartinho. Toni vestiu-se tremendo, mal abotoando-se, chocado pela morte do paciente e excitado por sua incrvel descoberta. 
Logo os dois estavam junto de Carla, fora do hospital.
        - Conseguiu falar com o Velho, Toni?
        -Carla! Me! Precisamos correr! Emergncia!
        
        
        
        
      18 - Comeando pelo desastre
         
        Barbosa estava cansado. Aquele tinha sido um dia duro e ele no conseguira avanar nem um pouco nas investigaes. Seu expediente j estava encerrado e ele 
poderia tomar uma cerveja, antes de ir para casa. Mas as dvidas daqueles dois meninos tinham deixado o policial mais que intrigado.
        Levou a mo ao pescoo, para afrouxar a gravata. Procurou no bolso.
        "Droga! Onde eu fui botar esse diabo de gravata? Devo ter deixado na viatura..."
        Os acontecimentos naquele colgio eram muito estranhos... Por onde ele deveria comear?
        "O primeiro acontecimento fora da rotina foi o desastre em que morreu a filha do professor Frederico, no fim do ano passado. A que deveria assumir o lugar 
do Velho.  por l que eu vou comear..."
        Aquela tinha sido uma ocorrncia de trnsito. Os arquivos do caso deviam estar l, no Departamento de Trnsito. Pegou o telefone interno e pediu uma viatura.
        - O Gol que o senhor gosta de usar saiu em diligncia, Barbosa - respondeu a voz do encarregado, do outro lado da linha. - Aqui ns s temos aquela velha 
C-14. Mas est sem combustvel...
        Barbosa desceu praguejando. Mais uma vez tinha de usar do seu pouco dinheiro para abastecer uma viatura policial.
        "Como  que a gente pode trabalhar direito desse jeito? Os bandidos e os traficantes tm melhores carros e melhores armas do que a gente!"
        A velha C-14 estava ainda em piores condies do que o velho Gol. Barbosa saiu batendo lata, abasteceu o tanque com o mnimo possvel de gasolina e tomou 
a avenida, na direo do Departamento de Trnsito.
        - Me, voc tem certeza de que aquele era o quarto certo? Eu no me enganei de quarto?
        - No, filho. Aquela era a unidade do professor. Eu verifiquei na papeleta pendurada na porta. Estava escrito: Frederico Moura.
        - Mas, afinal de contas, Toni, voc conseguiu ou no falar com o professor Frederico?
        O rapaz mal conseguia esconder a excitao 
        - No, Carla. Eu no falei com ele. 
        - Ele ainda est em coma?
        - No sei se o professor Frederico est em coma ou no, porque o paciente que est naquele quarto no  ele! 
        - Como?
        - O paciente que est deitado l, todo engessado,  careca!
        Os lbios de Carla abriram-se espantados, enquanto a menina lembrava-se da figura alta do diretor do Cidinha, sempre com sua vasta cabeleira grisalha despenteada, 
como um maestro italiano!
        - Mas o pior no  isso, pessoal! - continuava Toni, quase atropelando as palavras. - Me, os aparelhos de cada unidade de terapia intensiva esto ligados 
a uma central qualquer, fora do quarto?
        - No, Toni. Esse hospital s tem fachada de hotel cinco estrelas para enganar os ricos. Para examinar os monitores  preciso entrar em cada quarto.
        - E o enfermeiro grando, me? Ele est treinado para acompanhar os monitores?
        - Ah, ah! Se aquele  um enfermeiro, eu sou a rainha de Sab! O sujeito no sabe nada! Voc precisava ver que ridculo ele tentando me ajudar com o curativo 
da dona Lurdes...
        Toni deu um soco no ar:
        - Boa! Ento talvez ainda haja tempo para salvar o professor Frederico.
        - O que voc est dizendo?
        - Eu ouvi o fiunnn do monitor dos batimentos cardacos! Igualzinho no cinema! O careca que est naquele quarto acabou de morrer!
        Convencer um plantonista do Departamento de Trnsito no  tarefa das mais fceis. Barbosa teve de usar muito mais do que sua voz de trovo para conseguir 
que o sonolento funcionrio fosse buscar a pasta da ocorrncia que ele queria.
        - Vai ser difcil... O inqurito tem mais de oito meses... O secretrio fica fazendo discurso na televiso dizendo que vai informatizar tudo, mas at agora 
 o burro aqui que tem de se virar com esse monte de pastas empoeiradas... E eu tenho alergia, sabe? Se eu ainda conseguisse transferncia para a sesso de multas... 
Aquilo sim,  que  mamata!
        - Explique melhor, Toni! Aquele homem morreu? E no era o professor Frederico? E o que tem a morte dele com...
        - Agora no tenho tempo, me. Preciso entrar de novo no hospital. Ser que h um jeito de verificar a ficha de entrada do professor Frederico?
        Marta balanou a cabea:
        - Talvez fosse at fcil, Toni. Tudo neste hospital est em computadores e h terminais em todos os andares. 
        - timo, me! Ficou fcil!
        - Fcil, nada! Eu no sei mexer naquilo!
        Barbosa folheou o processo do acidente da professora Vernica Moura Marcondes. Viu as fotos da polcia tcnica. Estava tudo ali: o carro perdera a direo, 
rompera uma mureta de proteo e cara em um barranco de trinta metros de altura.
        Ficou por um longo tempo fitando a foto do cadver ensangentado em meio s ferragens retorcidas. Procurou pela percia no automvel. No havia detalhes. 
O caso havia sido encerrado como de rotina. 
        "Preciso ver esse carro..."
        
        
      19 - Estou entendendo!
         
        Mais uma vez Toni teve de tirar a roupa no quartinho e meter-se na camisolinha verde, enquanto a me voltava a fazer-lhe dois curativos enormes sobre os 
olhos. O frio aumentava, mas a excitao do garoto ajudava-o a agentar.
        Marta empurrou-o pelos corredores at encontrar um terminal de computador que estivesse sem ningum por perto.
        - O que  que eu fao agora?
        - O que  que est escrito na tela?
        - Tem uma tela em branco. No alto, tem uma faixa com uma poro de desenhinhos.
        - Certo. Pegue o mouse e...
        - Pegar o qu?!
        - Est vendo uma caixinha pequena sobre a mesa, ligada por um fio ao computador?
        - S-sim...
        - Eu s uso o teclado, mas sei como funciona o mouse. Ponha a mo em cima dessa caixinha. Voc vai ver que a setinha que est sobre a tela move-se quando 
voc mexe a mo. Conseguiu?
        - Ai... s-sim...
        - Agora leve a setinha at onde est o "file".
        - Onde?
        - Em cima,  esquerda. 
        - T.
        - Aperte duas vezes bem rpido o botozinho esquerdo do mouse. O que surgiu?
        - Um monte de palavras em ingls...
        - Leve a setinha at onde est escrito "open" e clique duas vezes...
        Marta seguia as indicaes do filho. Leu a lista de palavras que apareceu na tela. 
        Toni escolheu "Arqmetro" e mandou-a clicar nessa sigla. Depois em "Fichas"...
        - Agora clique em "edit", me. Conseguiu? Clique em "find". Apareceu um quadro, que fica piscando numa linha em branco, no ? Agora digite "Frederico Moura" 
nesse ponto... Pronto? Clique em "find next"...
        - Apareceu, Toni! Uma ficha completa do professor. 
        - Veja a em que dia e hora ele deu entrada no hospital, me...
        Marta abriu a boca de espanto:
        - Nossa, Toni! A data  20 de agosto. s onze horas da manh!
        - Al... a ligao est ruim, Don Peperone... No, desculpe... Eu s sa um minutinho da porta... Mas o garoto que entrou l no pode ter visto nada... Ele 
estava com os olhos cobertos por bandagens... Desculpe... no vou arredar p daqui... ningum mais entra no quarto... Juro! O que  que ele estava fazendo, quando 
eu entrei no quarto? Ora, nada demais, Don Peperone... o moleque estava s acariciando a cabea do velho...
        Toni tinha pressa, mas o dinheiro de Marta no dava para um txi.
        - Ainda mais com a tarifa noturna, Toni ... desculpe...
        - Vamos de nibus mesmo. Depressa!
        No nibus s havia os trs e Chip, que novamente dormia no colo de Carla. 
        Mesmo assim, tinham escolhido o ltimo banco, comprido, para que nem o sonolento cobrador pudesse ouvi-los.
        - Eu bem que achei estranho aquele grandalho. Na certa  um segurana contratado. No vai descobrir que o corao do careca parou, meu filho - explicava 
Marta. - Mas, a qualquer momento, a enfermagem passar por l, na sua ronda de rotina no meio da madrugada. Isso pode demorar uma ou duas horas, mas  possvel que 
agora mesmo algum esteja entrando no quarto. Da, vo descobrir a morte do tal careca.
        - Ai, tomara que demore bastante! Preciso tempo, tempo! - Toni forava-se por sussurrar, apesar da excitao. - Estou entendendo tudo, tudo!
        - Entendendo o qu, meu filho?
        - O professor Frederico sofreu o acidente, ou a tentativa de assassinato, na noite do dia 19. E s foi internado no Metropolitano s onze horas do dia seguinte. 
Mas no foi ele quem foi internado. Foi outro homem, um careca, com o nome dele! Demoraram um tempo para achar algum que pudesse ser internado no lugar do Velho!
        - Por que algum internaria outra pessoa no lugar do professor Frederico? - perguntou Marta, sem conseguir perceber qualquer lgica na descoberta do filho. 
- Seria fcil perceber essa manobra. Como enganar a famlia?
        - Nenhum membro da famlia Moura vem ao Metropolitano, me. Falei hoje com o filho e o genro. Gustavo est proibido de visitar o sogro porque tem algum vrus. 
E Larcio, para no correr riscos de contaminar o pai, tambm no entra na UTI. Tudo o que os dois fazem  ficar em contato com os mdicos, para saber do estado 
dele...
        - Estou achando isso muito mal explicado, meu filho...
        Carla acariciava os plos de Chip, mas seus olhos estavam presos em Toni:
        - Mas por que algum trocaria o professor Frederico por outra pessoa? E se o velho que est l na UTI no  ele, onde est o professor Frederico?
        - Esse  o ponto, Carla! Onde est o Velho? Temos de encontr-lo, antes que ele seja assassinado!
        - Nem fale em assassinato, Toni! - Marta pegou no brao do filho. - Mas algum haveria de perceber essa troca absurda. E os mdicos que tratam dele?
        - Voc sabe quem so esses mdicos, me?
        - No. No so mdicos do Metropolitano. Isso eu tambm li na ficha. Tal como o falso enfermeiro grandalho e malcriado, so dois mdicos desconhecidos que 
assumiram o paciente. Mas os plantonistas normais do hospital, tanto mdicos como enfermeiras, entram l a toda hora...
        - E qual  o problema? Voc acha que os residentes e as enfermeiras do Metropolitano conhecem o professor Frederico?
        O nibus levava os trs para o centro da cidade. O corpo de Marta implorava pela volta  casa, um chuveiro e um colcho macio. Mas estavam rodando de volta 
ao Cidinha, seguindo o palpite de Toni:
        - Temos de descobrir para onde foi levado o verdadeiro professor Frederico. Ou se foi levado para algum lugar...
        - E como  que voc vai descobrir isso? Toni respondeu com outra pergunta:
        - Me, o dinheiro que voc tem d para um sanduche e um copo de caf?
        - Por qu? Voc est com fome?
        - No  para mim, me.  para seu Joo, o vigia do Cidinha...
        
        
      20 - Troca de cadveres
         
        Ele estava chateado. Desembrulhou o chiclete e meteu-o na boca. Amassou a embalagem e jogou-a na calada ao ligar o carro.
        - D um jeito!- ordenara Don Peperone. - Esses dois moleques sabem demais. 
        Livre-se deles de qualquer maneira. Eles precisam sumir! Prestssimo!
        A casa do tal Toni estava vazia. Na casa da menina, ele s encontrou a tia, que abrira a porta com cara de sono e roupa de dormir.
        - A Carla? Foi dormir na casa de uma: amiga... Desculpe, mas no sei onde fica...
        "Porcaria! Droga de vida!", lamentava-se ele, ouvindo o arranhar da segunda marcha.
         
        - Toni! - implorava Carla. - Fique calmo, por favor, e explique direitinho qual  esse palpite. No estamos entendendo nada!
        - Est bem, vamos recapitular. Suponhamos que o autor do desfalque, pressionado pelo Velho, tenha tentado mat-lo, jogando-o pelas escadas do Cidinha... 
Ou que nem tenha jogado ningum por escada nenhuma, mas quisesse preparar um crime perfeito...
        - Quer dizer que o Velho ainda pode estar vivo? - Se ele tivesse morrido, nunca mais poderia acusar ningum de desfalque, no ? Da, a armao que eu estou 
pensando no seria necessria...
        - Que armao  essa?
        -  brilhante, pessoal! Esconderam o professor Frederico, ferido ou no, em algum lugar e internaram no lugar dele algum com muitas fraturas, quase morto. 
Na certa at provocaram essas fraturas naquele pobre velho careca...
        - Que horror! Mas por que algum faria isso?
        - Fcil: quando o careca morresse, teriam um atestado de bito, legalssimo, assinado pelos mdicos plantonistas do Metropolitano. Em nome do professor Frederico!
        - Mas para que serviria isso?
        - Para legalizar um assassinato, Carla! Quando o careca morresse, a sim o professor seria assassinado!
        - Meu Deus!
        - Depois de matarem o Velho, seria fcil trocar seu cadver pelo corpo do careca no caminho para o velrio, por exemplo. Assim, todo mundo que conhecia o 
professor poderia comparecer ao necrotrio, chorar por ele, levar flores, e tudo estaria certo, pois todos veriam o professor dentro do caixo!
        Carla estava apavorada:
        - Mas isso tudo vai acontecer mesmo, Toni! O careca j est morto!
        - Tomara que demorem um pouco para saber disso, Carla. Tomara que demorem...
        - Vamos falar com a polcia, Toni!
        - Voc chama a polcia, me. Mas, para invadir o Cidinha eles vo precisar de ordem do juiz, mandados e no sei mais o qu. E o professor pode ser assassinado 
de uma hora para outra. Ns temos de agir depressa!
        - Eu e a Carla
        - Eu e a Carla. 
        - O qu? Vocs vo invadir o Cidinha?!
        - Vamos.  apenas um palpite, me. Mas aposto que o professor ainda est l, dentro do colgio!
        - Mas...
        - Me, a delegacia fica perto daqui. So trs quadras para a esquerda do colgio e depois mais uma, virando  direita. Corra l. Os policiais com quem a 
gente falou chamam-se Barbosa e Xavier. Deve ter algum de planto que possa localizar um deles. V l, por favor. E traga a polcia aqui o mais rpido que puder. 
Vou dar um jeito de fazer eles entrarem l, sem ordem judicial nem coisa nenhuma!
        J passava muito de uma hora da manh. Marta procurava no pensar na exausto. O que ela deveria fazer? Acabar com aquela loucura? Dizer "chega" e levar 
todo mundo pra casa? Mas, depois, como ela poderia repetir quele filho que ele tinha capacidade para fazer qualquer coisa na vida? 
        Jogaria fora todo um esforo de educao especial para fazer de Toni um garoto como os outros? Mas ser que os outros garotos tambm se metiam em maluquices 
como aquela? S o que ela sentia era orgulho daquele menino. O seu menino...
        "Pronto! ", pensou a enfermeira, caminhando com deciso. "Agora eu vou at o fim!" 
        Encostaram-se na parede, na esquina em frente ao Cidinha, enquanto Marta distanciava-se, apressada.
        Carla lembrava-se da manh do dia 20, o dia em que tinha de entregar a pesquisa de Cincias. Mas, em vez do sinal para a primeira aula, o que houve foi uma 
convocao de todo mundo para o ptio: alunos, funcionrios e professores. Foi quando o doutor Larcio e Gustavo comunicaram o acidente do professor Frederico. 
        Ela j nem sabia se devia ou no acreditar em acidentes. Nem sabia mais em que acreditar...
        Toni raciocinava:
        - A noite do dia 19... O que mais aconteceu naquela noite? Deixa ver... J sei!
        Foi difcil encontrar os destroos do Monza no meio daquele enorme cemitrio de automveis s escuras. O vigia ficou furioso por ser acordado quela hora, 
mas acalmou-se, no tanto pelo distintivo que Barbosa e exibiu, mas pela corpulncia daquele investigador.
        Uma chave de roda abandonada serviu de alavanca, para Barbosa abrir o que restava do cap retorcido. Havia trazido uma lanterna e esquadrinhou o motor.
        Graxa velha sujou-lhe o temo, mas ele nem ligou. Entendia um pouco de mecnica e ali no encontrou nada suspeito. Deitou-se no cho de barriga para cima 
e enfiou-se debaixo do carro, com a lanterna acesa. Agora sim, seu terno estava irremediavelmente imundo.
        De repente, localizou a verdadeira causa do "acidente": "O que  isso? Que horror! Aqueles incompetentes!", xingava ele em pensamento a inpcia dos tcnicos.
"Como  que no viram isso? Isso no foi provocado pela batida..."
        Prximo  roda, havia uma pequena rachadura no duto de borracha do freio.
        Barbosa sabia que o fluido teria demorado um pouco para vazar, mas, aos poucos, a presso da frenagem tinha se incumbido de tornar inteis os freios do Monza...
        "Trabalho de profissionais!"
        A lanchonete que se aproveitava das mesadas dos estudantes ricos do Cidinha durante o dia virava barzinho de desocupados durante a noite.
        Quase duas horas da manh, o proprietrio comeava a descer a porta metlica, fechando seu negcio, quando dois jovens e um cozinho apareceram.
        Cheio de m vontade, concordou em preparar um sanduche frio e serviu o que restava na mquina de caf em um grande copo descartvel.
        - O acar est a. Peguem o que quiserem, que eu j passei da hora de fechar.
        O rapazinho de culos escuros perguntou, educadamente:
        - Desculpe, mas o senhor se lembra da noite do dia 19 passado?
        - O qu? Como  que eu vou me lembrar de qualquer noite? Todas as noites so iguais aqui. Tocar bbados para fora e ouvir conversa fiada...
        -  mesmo... Trabalho duro o seu, no? Mas no dia 19 teve jogo do Brasil, no se lembra? - perguntou Toni.
        - Claro que me lembro. Porcaria de seleo, no tem ningum do meu time.
        - ... aquele empate foi chato mesmo... - concordou o garoto, querendo agradar.
        - Pois . Mas  que eu tenho uma curiosidade: nessa noite, l pelas sete horas, o senhor se lembra de uma ambulncia saindo aqui do Cidinha?
        - Ambulncia? No vi nenhuma ambulncia.
        Toni continuou com seu jeito educado, cativante, a quem ningum negaria responder, por mais cansado que estivesse:
        - E o senhor no se lembra, ento, de ver carregarem algum ferido... talvez em um carro particular mesmo?
        - Ningum carregou ningum naquela noite. Sempre fico de olho l fora, vigiando as mesinhas da calada a noite inteira, para ver se ningum se manda sem 
pagar a conta.
        - Puxa! Ento ningum saiu carregado daqui naquela noite?
        -  claro que no, garoto!
        
        
      21 - E onde estar o professor?
         
        Seu Joo agradeceu demais o lanche que os dois lhe ofereciam. Nem se lembrou de estranhar um presente como aquele, oferecido por dois alunos do Cidinha s 
duas da manh. quela hora, o lanche vinha a calhar.
        - O caf est muito frio, seu joo?
        - Est morninho... Melhor do que da garrafa trmica que eu sempre trago. Hoje nem vim com ela. Acabou o p l em casa... - mentiu ele, sem coragem de confessar 
que o que tinha acabado em sua casa era o dinheiro.
         
        "Essa dona Vernica Moura Marcondes no morreu de acidente coisa nenhuma. Ela foi assassinada!"
        Furioso, Barbosa tentava fazer pegar o motor da velha C-14.
        - Seu Joo, o senhor se lembra da noite em que o professor Frederico saiu carregado daqui, depois do acidente?
        O homem estava de boca cheia, devorando com prazer o sanduche. Daquela vez, ele nada tivera para trazer na marmita.
        - O qu? Voc est falando do acidente do diretor? Coitado... Soube disso no dia seguinte...
        - No dia seguinte, seu Joo? O senhor no viu o diretor sair daqui, ferido?
        - Isso deve ter sido antes de eu pegar no servio. Durante o meu turno ningum saiu daqui carregado. 
        Toni suspirou baixinho.
        Foi Carla quem continuou:
        - A que horas o senhor pega no servio, seu Joo? 
        - s seis...
        - E o senhor no se atrasou, na noite do dia 19? 
        - Nunca, menina. Eu nunca me atraso. Preciso desse emprego. Tenho seis filhos pra criar. Um deles ainda  desse tamanhinho assim...
        "Quem poderia querer dona Vernica morta?" 
        Barbosa sorriu amarelo. Em ocasies como aquela, o manual no-escrito de todos os policiais dizia: SIGA O MARIDO!
        Os dois tinham voltado  esquina, fugindo do raio de viso do vigia.
        Toni no parava de raciocinar:
        - No dia 19 eu fiquei na videoteca at depois das seis, Carla. Quando sa, o professor Frederico ainda estava na sala da diretoria, trabalhando. Lembro perfeitamente!
        - Como  que voc sabe, Toni?
        - A voz dele  inconfundvel, Carla. Eu o ouvi conversando com o filho.
        - Ento voc est certo mesmo: o professor ainda est l, dentro do Cidinha!
        Toni sorriu, triunfante: 
        - Ningum tirou ele de l, Carla. E sabe do que mais? Aposto que sei at quem fica tomando conta do Velho... 
        - Quem?
        - Lembra-se que o Tadeu no saiu do colgio, no fim do expediente?
        -  claro! - exclamou a menina. - Voc acha que  ele que fica a noite inteira cuidando do professor? E ele est informatizando a contabilidade, Toni! Vai 
ver foi ele quem deu o desfalque!
        Toni balanou a cabea:
        - Acho que no... seu pai confessaria o crime para acobertar logo o idiota do Tadeu? Claro que no. Depois, o Tadeu entende de computadores e tambm no 
faria alteraes "grosseiras" nas contas. Acho que tem algum mais alto a...
        - Mais alto? S se for um dos diretores! 
        -  isso, querida!
        - Espere a: disseram que o professor rolou as escadas do terceiro andar! A sala de Gustavo fica no terceiro andar, Toni!
        A C-14 parou bem em frente  portaria do prdio. Barbosa aproximou-se da grade do condomnio e apertou o fone de comunicao, acordando o porteiro:
        - Ligue para o apartamento de Gustavo Marcondes! 
        A voz do porteiro veio arrastada:
        - Quem deseja? 
        -  a polcia!
        Toni e Carla lutavam para encontrar as outras pontas daquele novelo. Os olhinhos da menina brilhavam. Ela estava lutando pela honra do prprio pai.
        - S no posso imaginar onde poderiam ter enfiado o professor Frederico, Carla... - pensava Toni, em voz alta. - Conheo todos os trs andares do Cidinha 
como a palma da minha mo. Poderia at desenhar a planta dessa escola inteirinha. No h nenhum canto l em que se pudesse esconder uma pessoa. E ainda mais duas, 
se contarmos com o Tadeu ou com quem fica tomando conta do Velho durante o dia...
        Carla tocou-lhe o brao. Ainda havia uma possibilidade: 
        - S se for no poro, Toni.
        - No poro? Que poro?
        A menina olhou para aquele garoto especial. Tinha estudado por quase nove anos naquele colgio... S que nunca pudera ver a fachada. Qualquer passante poderia 
dizer que havia um poro baixo sob toda a extenso do Cidinha.
        Carla acariciou a cabea de Toni, percebendo que havia coisas no mundo que ele no podia ver. Aquele garoto fizera tanto naquele dia, que ela se esquecera 
que ele no podia tudo...
        - H um porozinho baixo no Cidinha, Toni... 
        Toni resmungou. Ficava furioso quando descobria alguma fraqueza nele mesmo. Mas logo afastou a decepo e perguntou:
        - Um porozinho baixo? Temos de entrar l, Carla. Voc conhece alguma entrada?
        - Meu Deus! - exclamou Carla. Devem ter jogado o cadver do professor no poro!
        Toni tranqilizou-a:
        - Nada disso. O professor s pode estar vivo... Se ele estivesse morto, voc no acha que, em duas semanas, todo mundo j no teria descoberto pelo cheiro?
        -  mesmo...
        - E a entrada, Carla?
        - Bom... uma vez eu vi uma portinha perto da escada da cozinha, l nos fundos do prdio.
        - Vamos, Carla. Tenho um plano!
        
        
      22 - Chip adora brincadeiras
         
        - Al... Don Peperone?... Desculpe acordar o senhor a esta hora mas  que... Pare de gritar um pouco, Don Peperone. A coisa  urgente... A enfermagem acabou 
de passar por aqui... O velho careca morreu, Don Peperone... Que timo, no  mesmo? ...Sim, j pedi para o mdico de planto preencher o atestado de bito... O 
senhor vai para a escola agora com o Giovani? ... Est bem, Don Peperone... Eu fico aqui no hospital tomando conta do cadver...
        Carla no se deixava dominar nem pelo cansao, nem pelo frio. Estava lutando pela liberdade do pai, sob a liderana de um guia maravilhoso.
        Cautelosamente, os dois deram a volta no quarteiro contornando a grade da escola. De longe, Carla via a entrada da cozinha. Seu Joo tinha acabado de abrir 
a porta e estava sentado na soleira, mal iluminado por uma lmpada que acendera l dentro.
        Toni sussurrou um tempo no ouvido de Chip. O rabo do cachorrinho sacudia freneticamente, como se estivesse entendendo tudo e adorando a proposta.
        Seu dono colocou-o devagar por cima da grade. O cachorrinho pulou para o gramado do jardim. No mesmo instante, ps-se a correr na direo da porta da cozinha, 
latindo sem parar.
        - Au, au!
        Carla viu seu Joo levantar a cabea, surpreso. 
        Chip chegou a poucos metros do homem e parou. 
        - Que  que faz esse cachorrinho aqui? Venha c! Pra fora!
        Chip fez meia-volta e correu na direo contrria. Esbaforido, seu Joo correu atrs.
        - Tudo bem, Toni. Vamos l!
        Os dois pularam a grade e, de mos dadas, correram na direo da cozinha.
        A portinha  aqui, Toni. Ei, espere um pouco... 
        Toni percebeu que Carla afastava-se um instante e logo voltava.
        - O que  que voc foi fazer?
        - Seu Joo esqueceu a lanterna no degrau, Toni. Fui buscar...
        - E pra que voc precisa disso?'
        - Ora, Toni! Na escurido desse poro, eu preciso de uma lanterna!
        - Tem gente que precisa de cada coisa intil... - comentou o rapaz, enfiando-se pela portinha.
        O porozinho era baixo mesmo. Andando de quatro, os dois amigos arrastaram-se pelo cho empoeirado.
        Aquele poro era o nico lugar onde poderiam ter escondido o professor Frederico, mas nenhum dos dois tinha coragem de dizer ao outro que parecia muito improvvel 
que tivessem deixado o Velho durante duas semanas num espao to baixo, onde ningum podia ficar de p.
        Por um momento, Toni temeu que o professor estivesse morto mesmo e enterrado naquele poro. Mas logo afastou essa idia, confiando em sua prpria teoria: 
se o Velho estivesse morto, como os bandidos iam trocar um cadver putrefato, depois de duas semanas de cova, pelo cadver fresquinho do velho careca?
        "Ai!", pensou Carla. "No posso acender essa lantema. Seu Joo vai notar a luz!"
        Teve de resignar-se a seguir o amigo, agarrando-se s suas roupas, pois no havia nenhum sinal de luz at onde ela podia enxergar a extenso do poro.
        Toni rastejava na frente. Conhecia perfeitamente a planta do Cidinha. O poro, naturalmente, seguia o mesmo desenho, pois era constitudo pelo vo entre 
os alicerces.
        Ouviu nitidamente passinhos midos que corriam por todos os cantos,  medida que eles avanavam.
        - Carla...- sussurrou ele. - Por favor, no me v fazer um escndalo se encontrar algum rato, hein? "Ratos?! Que horror!"
        - Pode deixar, Toni. No sou nenhuma menininha fresca! - respondeu ela, gelada de medo com a idia de deparar com um rato peludo.
        Mentalmente, Toni orientava-se por baixo do Cidinha, procurando esgotar toda a planta do poro. 
        - Carla, tem alguma coisa estranha nesse poro... 
        H minutos, os dois rastejavam ao longo de uma parede totalmente fechada, sem nenhuma passagem. Mas Toni tinha certeza de que tinham percorrido apenas um 
tero da estrutura do Cidinha. Devia haver muito mais poro... 
        - Tem uma parte emparedada, Carla... 
        - Como assim?
        - O poro devia ser muito maior. Estamos dando sempre em uma parede slida. H uma parte fechada, que s deve ter acesso por alguma outra entrada...
        - E agora, Toni?
        De repente, o frio que sentia fez o rapaz lembrar-se de um ventinho... que sentira naquela tarde.
        - J sei, Carla! J sei onde est o professor. E sei muito bem como chegar at l!
        Guiada por Toni, Carla estava de volta  portinha de entrada do poro. Espiou cautelosamente. Seu Joo no estava por perto. Chip devia estar lhe dando um 
belo cansao...
        Saram agachados e logo estavam dentro da cozinha, cuja porta seu Joo esquecera aberta.
        - Venha, Carla. Vamos para a sala da diretoria. Tentando acompanhar os passos apressados do amigo, a menina caminhava apoiando a mo no ombro de Toni, pois 
no enxergava coisa alguma na escurido dos corredores. 
        -  aqui.
        Abriu a grossa porta da sala e os dois entraram em silncio, fechando-a em seguida.
        
        
      23 - Fomos enganados!
         
        Marta entrou no saguo da delegacia e aproximou-se de um balco, atrs do qual estava um homem, meio dormitando.
        - Com licena...
        O homem abriu os olhos e encarou-a, mal-humorado: 
        - Hum, o que a senhora quer?
        -  urgente. Preciso falar com o investigador Barbosa. Ou com um outro, chamado Xavier!
        As cortinas estavam bem fechadas e Carla pde acender a lanterna sem risco de serem descobertos pelo vigia, l fora.
        A luz brilhou, revelando Toni agachado no tapete. Compenetrado, ele tateava uma estante de livros. Tinha sentido novamente o ventinho suave que parecia passar 
por baixo da estante.
        - Carla, veja se encontra uma esptula...
        A menina nem perguntou para que ele precisava de uma esptula, porque aquela no era hora de conversa. 
        Com a luz da lanterna, procurou qualquer coisa parecida com uma esptula em cima do tampo da bela mesa da diretoria. Ao lado da janela, havia um armrio. 
        Carla abriu-o e vrios rolos de papel caram sobre ela, espalhando-se no cho.
        - O que  isso?
        - Devem ser os mapas que eu derrubei de cima da mesa hoje  tarde, Carla.
        - Mapas, Toni? - apontando a lanterna com uma das mos, a menina desenrolou um dos tais "mapas". Isso so plantas!
        - Plantas? Como assim?
        - Uma poro de plantas! - freneticamente, Carla desenrolava os papis e explicava para o amigo. - De um shopping center. Coisa grande! E voc no adivinha 
uma coisa... 
        - O qu?
        - Aqui esto assinaladas as ruas onde este shopping center ser construdo... So estas ruas, Toni!  a rea inteira do Cidinha!
        Toni parou de apalpar a estante.
        - Um shopping center? Aqui, no terreno do Cidinha?  mesmo! Este terreno  enorme, muito bem localizado. Um lugar ideal para um shopping!
        - Ora, Toni! O professor Frederico s concordaria com a demolio do Cidinha para a construo de um shopping depois que algum tivesse passado por cima 
do...
        - Do seu cadver, Carla? Por isso  que temos de nos apressar. Para que ningum passe por cima do cadver do professor Frederico!
        - Ai, Toni! A priso do meu pai tem muita coisa por trs!
        - Voc est percebendo? Algum quer afastar o professor Frederico definitivamente, para fechar o colgio e vender o terreno para a construo de um enorme 
shopping center! E no duvido nada de que a morte da professora Vernica, no comeo do ano, tenha sido o primeiro passo para anular as oposies a esse projeto!
        - E tudo isso est sendo feito por... ai, no consigo nem aceitar uma barbaridade dessas! Gustavo devia estar tirando dinheiro do Cidinha e...
        - Tudo se encaixa: os cargos do seu pai e do Tadeu so da rea financeira, a que est sob a chefia do Gustavo. De algum modo, o danado deu um jeito de livrar 
a cara obrigando seu pai a confessar o crime!
        - Coitado do papai... Mas, ser mesmo que Gustavo teria coragem de matar a prpria mulher? E o sogro? E o que acontecer com Larcio? Ele  um apaixonado 
por educao. Deve ser o prximo da lista!
        -  uma lista grande, Carla...
        - No que  que a gente est se metendo, Toni?- Carla estava apavorada.
        - J estamos metidos nisso at o pescoo, Carla!
        A menina encontrou um cortador de papis numa das gavetas do armrio. Toni comeou a passar o cortador entre o tapete e a base da estante. No encontrou 
nenhuma resistncia, como se um dos mdulos da estante estivesse suspenso no ar, sem apoiar-se no tapete.
        - Carla, a lateral dessa estante tem duas tbuas, uma em cima da outra. Vamos ver.
        Enfiou o cortador entre as tbuas. Em determinado ponto, a lmina foi detida por algo slido.
        Tateou perto do local. Com as pontas dos dedos, sentiu uma leve depresso na tbua, do tamanho de uma caixa de fsforos. Apertou firme.
        Como se fosse a caverna do Ali Bab, a estante inteira recuou. 
        - Abre-te, Szamo! tinha uma entrada secreta, Toni!
        - Psiu, Carla... - agarrou a menina bem perto de si, colando a boca em seu ouvido.- No podemos fazer nenhum rudo. Preste bem ateno: minha me deve chegar 
logo, trazendo a polcia. Vamos entrar como se fssemos fantasmas. 
        Apague a lanterna e segure em mim...
        A escurido era total agora. Com as pontas dos tnis, Toni percebeu que havia uma escada para descer. Aquele trecho secreto do poro era escavado, mais profundo, 
de modo que as paredes tivessem altura normal, como qualquer casa. 
        Provavelmente um antigo depsito de carteiras quebradas, construdo h dcadas.
        Carla agarrou o ombro da jaqueta de Toni e deixou-se guiar na descida da escada.
        L embaixo, o poro era um labirinto vazio mas, mentalmente, Toni tentava lembrar-se da planta do Cidinha, e assim podia adivinhar a existncia de cada parede. 
Em certo ponto, Carla puxou-lhe a cabea e sussurrou-lhe no ouvido:
        - H uma luz  frente, Toni... 
        - Onde?
        -  esquerda. Mais ou menos debaixo de onde deve ficar a sala da biblioteca...
        Toni parou. No podia continuar avanando, sem correr o risco de ser visto.
        Carla tomou a iniciativa:
        - Fique quietinho aqui, Toni. Eu vou dar uma espiada. 
        - Tome cuidado, Carla.
        A luz fraca que vinha daquele lado permitia que a menina enxergasse para onde ia. Colou-se  parede e avanou, p ante p.
        Chegou ao lado de uma porta semi-aberta. 
        De dentro, ouvia apenas um ressonar suave.
        "Tem algum dormindo l dentro!"
        Com o corao aos pulos, enfiou a cabea pelo vo da porta. O que ela viu quase fez com que soltasse um grito. "Encontramos!"
        Voltou com mais cuidado ainda e sussurrou no ouvido de Toni:
        - O professor Frederico est l, Toni. Eu vi. Est imvel... parece morto... E voc nem vai acreditar em quem est l dentro, dormindo num colcho perto 
da porta...
        -  fcil adivinhar, Carla. Quem est l  o Tadeu! S tem ele l? Como est deitado?
        - S tem ele, alm do Velho. E ele est dormindo de bruos... Por qu?
        - Me d a gravata do Barbosa, que voc guardou no bolso. Oua o que ns vamos fazer...
        Chip corria de um lado para outro em volta do prdio do colgio.
        Seu querido dono e a nova amiga que lhe fazia cafun to bem tinham desaparecido h tempo demais para o gosto do cachorrinho, que detestava ficar s.
        Farejava cada canto detalhadamente, como se fosse um detetive procurando pegadas no barro com uma lente. Localizou o cheiro familiar na portinha do poro 
e entrou correndo, sem ligar para as dezenas de ratazanas que fugiam para todos os lados, ao perceberem a invaso de um inimigo natural.
        "Que os ratos fiquem para o gatos!", parecia pensar o cachorrinho, concentrando-se na busca dos amigos. Voltou e reencontrou a pista, subindo as escadinhas 
que davam na grande cozinha do colgio.
         
        
      24 - Cinco pessoas para matar
         
        Tadeu foi acordado pela presso de uma ponta dura a apertar-lhe as costelas. E uma voz grossa falava duramente:
        - Quietinho a!  a polcia! Nem pense em se mover! 
        - Hum...?
        - Calado! Se no quer levar um tiro!
        Da rua deserta, vinha o rudo do motor de um carro. E Toni percebeu que as velas daquele carro falhavam e que a segunda marcha arranhava muito.
        " a polcia mesmo! Estamos salvos!"
        Agachada, Carla apertava o dedo indicador nas costas de Tadeu. Toni, depois de ter feito a voz mais grossa e autoritria que conseguia forar, abaixou-se 
ao lado dela, pressionou as costas do homem deitado com os joelhos e no teve dificuldade em agarrar-lhe os braos e pux-los para as costas. Com habilidade, amarrou-lhe 
os pulsos com a gravata ensebada, dando dois ns.
        Da escada secreta, vinham rudos de passos. Os ouvidos treinados de Toni contaram vrias pessoas. Quatro, talvez cinco... ou seis. Uma delas era pesada demais. 
Devia ser Barbosa.
        - Pronto, Carla! A polcia j chegou!
        Ao ouvir aquela voz jovem, agora sem disfarce nenhum, Tadeu virou a cabea. 
        Iluminados pela lmpada fraca que estava suspensa no teto, estavam dois alunos do Cidinha.
        - O que  isso? Dois moleques da escola!
        - Calado, Tadeu! - ordenou Toni, triunfante. Acabou a brincadeira. Agora  a polcia mesmo!
        Antes que Carla pudesse ver o primeiro rosto que entrava no salo subterrneo, Toni j tinha percebido o cheiro forte de chiclete.
        Xavier entrava com um revlver apontado para a frente. Com a outra mo, arrastava seu Joo, algemado a mais uma pessoa.
        - Toni, Carla! Fomos enganados...
        As lgrimas corriam pelo rosto de Marta...
        Mais trs homens entraram em seguida. Carla no podia entender como o corpo obeso de um deles tinha conseguido passar pela entrada secreta.
        - Mascalzoni! Incompetenti! Como  que vocs deixaram dois moleques se meterem tanto na nossa vida? Vocs no servem nem para assaltar um jardim de infncia!
        O delegado Mendes e o investigador Xavier estavam de cabea baixa, recebendo a bronca, como se fossem crianas diante do pai. Nem pareciam duas autoridades 
policiais. Xavier tratou de desamarrar Tadeu.
        "Meu Deus! ", apavorou-se Carla. "Toda a polcia est do lado dos bandidos!"
        Os capangas haviam arranjado um caixote vazio para o chefe sentar. Era de madeira reforada, mas vergava-se sob o peso imenso do homem que os bandidos chamavam 
de Don Peperone.
        Sentados no cho, Marta, seu Joo, Toni e Carla estavam sob a mira de dois revlveres.
        Deitado num colcho imundo, o professor Frederico parecia plido como um cadver, mas Marta percebeu que seu peito subia e descia suavemente. Ele estava 
vivo, mas dopado, como se estivesse prestes a ser levado para uma sala de cirurgia. Uma bandagem suja de sangue envolvia-lhe o peito.
        Don Peperone ajeitava o palet, vestido sobre o pijama. Parecia mais calmo, depois de ter desancado seus cmplices, exibindo a autoridade de um chefe mafioso 
de filme americano.
        - Ma, in fondo, tudo acabou bene! O nico problema  de vocs, incompetenti. Em vez de um s, vo ter cinque persone da uccidere...
        Carla sussurrou para Toni:
        - O que quer dizer "uccidere"? - Quer dizer "matar", Carla...
        De repente, Don Peperone soltou um grito: 
        - Aiuto! Che cosa  questa?
        - Au, au!
        Um cachorrinho peludo invadia o salo subterrneo e ferrava os dentes na cala do pijama de Don Peperone!
        
        
      25 - Quieto, canalha!
         
        O valente Chip j tinha sido dominado por Tadeu. O empregado traidor pegou a gravata de Barbosa e carregou o cachorrinho, para amarr-lo numa viga do corrimo 
da escada secreta. Voltou logo em seguida.
        - Va bene, giovinetto dei cchi neri... - comeou o imenso vilo, dirigindo-se a Toni, j mais calmo depois do susto que sofrera com a fria do cachorrinho. 
- Por que voc e essa bela bambina tinham de se meter onde no so chamados?
        O corao de Toni batia acelerado. Ele, Carla, sua me e seu Joo estavam agora includos, junto com o professor Frederico, na lista dos prximos assassinatos 
daquela quadrilha. Precisava ganhar tempo... Mas, para qu? Ningum sabia que eles estavam ali, presos num subterrneo secreto... Criou coragem e resolveu enfrentar 
os bandidos como se fosse um heri de filme americano:
        - J descobrimos tudo, Don Peperone. Vocs querem acabar com o Cidinha. Este colgio ocupa o ltimo grande terreno do centro desta cidade, e vocs querem 
construir um shopping center aqui!
        - Benssimo! Sagace ragazzino! Como descobriu isso? 
        - Descobri muito mais!  claro que o professor Frederico nunca concordaria em fechar o Cidinha. Ele precisava ser afastado, no ? Mas havia algum, aqui, 
dentro do Cidinha, que estava do lado podre de vocs! O trabalho sujo ficou para ele! E o demnio jogou o professor Frederico pelas escadas!
        Don Peperone arregalava os olhos, surpreso com tudo aquilo que o menino sabia. 
        Mas sorria, pois estava mais do que seguro. Aquele garoto no viveria para contar suas descobertas a ningum.
        - Quase, ragazzino! No foi difcil trazer o homem profumatto para o nosso lado. 
        Ele gostava de jogo e foi s financiar suas extravagncias com as cartas. Sua dvida ficou grande, como eu tinha planejado. O coitado ainda tentou tirar 
dinheiro do colgio para cobrir o que devia, mas ns tnhamos providenciado para que essa dvida fosse impossvel de ser paga.
        - Bandidos! - gritou Carla. - E como  que vucs obrigaram meu pai a confessar que foi ele quem tirou esse dinheiro?
        - Foi brilhante a minha idia, no foi, bambina? O ragazzo pro fumatto no sabia o que fazer, quando o contador descobriu os desfalques. Mas eu expliquei 
direitinho para ele como se faz uma boa chantagem. Afinal, a mulher do seu Afonso precisava viver, no ? E a filha precisava continuar estudando sem pagar, non 
 vero? 
        - Malditos!
        - Mas ele no jogou ningum das escadas- continuou Don Peperone, sem ligar para a raiva da menina. 
        - O professor Frederico foi tirar satisfaes com ele e ameaou transformar a escola numa fundao administrada pelos professores, impedindo que o terreno 
jamais pudesse ser vendido. Na discusso, ele perdeu a cabea e acabou usando um cortador de papis no peito do velho professor... Pecatto! Se o professor Frederico 
aparecesse esfaqueado, todo nosso plano iria por gua abaixo, no ?
        Toni cortou:
        - E a vocs encontraram um velho todo fraturado e o internaram num hospital de luxo, que faz poucas perguntas para quem paga alto! Era s esperar o velho 
morrer que teriam um atestado de bito normal, em nome do professor. Depois, bastava trocar os cadveres e a populao dessa cidade enterraria nosso diretor sem 
desconfiar de nada!
        - Bravo, ragazzino! Quase certo, de novo! Depois da infeliz facada, tnhamos de arrumar as coisas. S que o velho mendigo que ns achamos no tinha nenhuma 
fratura. Foram as mos do nosso colaborador, o Giovani aqui, que providenciaram uns ossos quebrados...
        Carla olhou as mos enormes do capanga e imaginou-o quebrando metodicamente os ossos de um pobre e velho mendigo, de modo que ele s fosse morrer mais tarde, 
no hospital...
        No escuro da escada secreta, Chip tentava roer aquela coleira de pano. 
        - E tudo vai acontecer do jeitinho que voc falou, ragazzino - continuou o imenso bandido. - S estamos esperando que o Zeppe, aquele que voc conheceu no 
hospital, venha para c trazendo uma perua grande, pois agora temos cinco peixes para jogar na gua... Depois, como o velho mendigo j est morto e o atestado de 
bito j est nas mos do Zeppe, usaremos a mesma perua para levar o cadver do professor Frederico para um ponto combinado. Acho que d para fazer tudo isso antes 
do amanhecer, voc no concorda? O carro fnebre vai estar sendo dirigido por uma papa-defunto que nos deve qualquer piccoli favori e vai ser fcil trocar os dois 
velhos. Mais um para tomar banho no rio...
        - Bandido! - xingou Carla de novo. - Mas vocs no vo escapar dessa!
        - No vamos? E quem vai nos impedir? At a polcia aqui est do nosso lado... - apontou para Mendes e para Xavier e voltou-se de novo para Toni. Ah, ragazzino, 
o Zeppe me ligou, do hospital, depois que voc saiu de l. O idiota estava tranqilo, dizendo que voc no poderia ter descoberto nada por causa dei suoi cchi neri... 
        Mas eu quase morri de susto quando o Zeppe disse que voc tinha accarezzato a careca do mendigo. Scuzi, ragazzino, mas o Giovani no conseguiu encontrar 
nenhum velho mendigo com uma cabeleira como a do professor Frederico...
        - E o plano  antigo, no , Don Peperone? - completou Toni, sorrindo desanimado. - Comeou a ser executado quando vocs assassinaram a professora Vernica 
Moura, no ?
        Desta vez, o gordo espantou-se de verdade:
        - Ragazzo vilano! Voc descobriu isso tambm? 
        O gordo bandido tentou levantar-se.
        Foi a que o caixote no agentou mais e... crac! Partiu-se o corpo imenso desabou no cho sujo do subterrneo. 
        - Don Peperone! Stai offeso?
        Giovani, Xavier e Tadeu correram para socorrer o chefe.
        Carla aproveitou a ocasio. Enfiou a mo no bolso da jaqueta de Toni, pegou a bengala, ps-se de p e, com um movimento, armou a bengala e bateu na lmpada 
que pendia por um fio do teto!
        - Agora  com voc, Toni!
        O rapaz tinha ouvido a lmpada espatifar-se. Ah, finalmente ele estava em posio de superioridade! A escurido era seu ambiente de nascena e, sem fazer 
qualquer rudo, correu para a sada do salo.
        - Attenzzione! Il ragazzo!
        Um claro iluminou tudo por uma frao de segundo e ouviu-se o estampido de um tiro.
        - Non sparare! va a uccidere il capo! 
        - No atirem! Vo atingir Don Peperone! 
        - Peguei!
        - Cosa ha preso, imbecile? Sono io!
        Marta e Carla estendiam as pernas e procuravam fazer tropear os bandidos, que j estavam atrapalhados o suficiente.
        - Presto! II ragazzino, incompetenfii! Lui va a scapare!
        Toni corria pelo labirinto subterrneo sem sequer esbarrar nas paredes. Em segundos, estava no p da escada secreta. Sua mente estava um vulco:
        "Ragazzo profumaito, foi o que disse o gordo! Ai, eu estava errado o tempo todo!"
        Quando chegou na passagem que dava na sala da diretoria, sua primeira impresso foi o perfume forte da colnia carssima do...
        - Doutor Larcio!
        Ouviu a voz simptica do jovem diretor:
        - Toni! O que voc est fazendo aqui, a essa hora da madrugada?
        O garoto parou na abertura da estante, sorrindo e ofegando. L embaixo, no poro, continuava a ouvir imprecaes em italiano e rudos de luta.
        - Tudo bem, doutor Larcio?
        - Como, "tudo bem"? O que est acontecendo  que houve com essa estante? Caiu? 
        Toni no se abalava e repetia: 
        - Tudo bem, doutor Larcio? Eu perguntei "tudo bem"...
        - Tudo bem?! Voc est ficando maluco, Toni? - perguntou o diretor, surpreso. 
        - Comigo est "tudo bem".
        - Como assim, Toni? 
        -  uma longa histria, doutor Larcio... Uma histria que comeou com "erros grosseiros". Cheguei apensar que esses erros tinham sido cometidos pelo seu 
cunhado, o Gustavo... Que bobagem, no? Gustavo  ps-graduado em administrao de empresas e jamais cometeria erros grosseiros em contabilidade, no ? J o senhor... 
os nmeros no so o seu forte... Mas, afinal de contas, tudo vai ficar bem, no vai? 
        - O que  que voc est dizendo?
        - Estou dizendo "tudo bem". O mesmo que o senhor falou ao telefone, ontem... Eu sabia que havia         alguma coisa errada desde aquele momento, doutor 
Larcio. Seu Afonso acabava de ser levado pela polcia, com algemas nos pulsos. O senhor disse que precisava fazer uns telefonemas urgentes. Eu ouvi do outro lado 
da porta e no pude compreender por que deveria estar tudo bem? Depois da priso de seu Afonso, com a qual o senhor parecia preocupar-se tanto? Estava falando com 
Don Peperone, no estava? 
        No teve tempo para mais nada. Percebeu o homem aproximando-se furioso e abaixou-se, no momento em que um punho fechado zunia por cima dele. Jogou-se para 
a frente, atracando-se com o bandido e conseguindo cair embolado no tapete com ele.
        - Maldito moleque! Voc vai morrer!
        Lutando pela vida, Toni teve vontade de abrir numa gostosa gargalhada: ouvia o latido familiar de Chip e uma voz grossa, autoritria, que ordenava:
        - Quieto, canalha!
        
        
      26 - O heri de culos escuros
         
        Barbosa usava uma gravata novinha em folha. 
        Sentado na primeira fileira, acariciando o herico Chip no colo, o investigador mal ouvia o burburinho da multido que lotava o auditrio do Cidinha. Todas 
as pessoas importantes da cidade tinham comparecido  cerimnia de encerramento das festividades do centenrio do colgio, que agora chamava-se Fundao Educacional 
Professora Cidinha Moura.
        Em seu discurso, o prefeito elogiara a excelncia daquela escola, que agora prometia perpetuar-se, sob a direo de um conselho de pais e professores.
        Na mesa de cerimnias, toda enfeitada de flores, no centro do palco, o prefeito estava sentado  direita do professor Frederico Moura, j perfeitamente recuperado 
do srio ferimento que tinha recebido no peito, h quatro meses.
        Em seguida ao prefeito, sentava-se Gustavo que, nos ltimos meses, estava aprendendo a relacionar-se melhor com os alunos. Queria aprender com o professor 
Frederico e demonstrava grande disposio em modificar-se e compreender a juventude. Estava aprendendo o que era Educao. E parecia estar compreendendo que, para 
aprender, era preciso usar o corao.
        Sem parar de sorrir, Gustavo lanava olhares interessados para a bela mulher sentada a seu lado. E que mulher! Que herona tinha sido aquela enfermeira, 
que o investigador encontrara no subterrneo da escola, algemada, com o branco uniforme j todo imundo, engalfinhando-se no escuro com um bandido que parecera aliviado 
ao ser preso e poder livrar-se da fria de leoa de Marta!
        Marta e Gustavo! Poderia ser uma boa idia... Gustavo estava se esforando para aprender a ser um bom educador. E parecia esforar-se ainda mais para agradar 
a bela Marta. Assim, era possvel que os dois no continuassem vivos por muito tempo, pois Marta parecia corresponder queles olhares...
 memria de Barbosa, voltava a madrugada em que levara para casa aquela enfermeira fantstica e o casalzinho de jovens heris, sujos, exaustos, um dormindo 
no ombro do outro no banco de trs da velha C-14...
        Por um momento, recordou-se de algum que nunca mais estaria numa mesa como aquela. O jovem doutor Larcio Moura, na cadeia na certa por muito tempo, junto 
com Don Peperone, Zeppe, Giovani, Tadeu, o delegado Mendes e Xavier, os policiais corruptos. Todos agora aguardavam julgamento pelas mortes de Vernica Moura e de 
um velho mendigo, pela tentativa de assassinato do professor Frederico, por desfalque nas contas do colgio, conspirao para formao de quadrilha, crcere privado, 
falsidade ideolgica e mais uma meia dzia de crimes. Pobre da filha do professor Frederico! Haviam contado ao policial que aquela educadora era ainda mais dura 
que o pai e s mesmo passando por cima do seu cadver Don Peperone conseguira seguir com sua trama...
        Lembrou-se da dificuldade que os policiais haviam tido ao tentar enfiar no camburo o corpanzil de Don Peperone... E da surpresa do tal Zeppe, ao ser preso 
no momento em que chegava ao Cidinha dirigindo uma grande perua que acabara de roubar...
        Acariciava ternamente os plos limpinhos e escovados de Chip. Aquele bravo cozinho tinha surgido correndo, justamente no momento em que Barbosa chegava 
ao Cidinha com Gustavo, que se dispusera a abrir a porta do colgio quela hora para que os dois tentassem descobrir alguma pista nos papis do professor Frederico. 
Chip latia como se pedisse socorro, correndo em direo  escola, voltando, tornando a latir, at gui-los para a diretoria a tempo de surpreender Larcio em sua 
luta com Toni. Do pescoo de Chip, pendia a gravata esfarrapada de Barbosa...
        Ah, valente Chip! O cozinho sara correndo na frente e tinha ferrado os dentes com vontade na canela de Larcio... Em seguida, guiou os policiais para dentro 
do subterrneo, e foi Don Peperone que sentiu os dentinhos do co em sua canela gorda...
        Estpido Larcio! Nem fazia idia de que sua irm fora assassinada a mando de Don Peperone, iniciando o plano para construir um shopping center no terreno 
do Cidinha. Ao ser preso, gritava que no sabia daquele assassinato, mas o bandido no havia hesitado em esfaquear o prprio pai, na noite em que o Velho o acusara 
do desfalque e comunicara que ele nunca herdaria o Cidinha, porque o colgio seria transformado em uma fundao... Idiota! Se tivesse pago os remdios de dona Clotilde 
do prprio bolso, em vez de insistir com o convnio mdico, e se no tivesse dito "tudo bem" ao telefone, talvez Toni nem tivesse se metido naquela histria.
        No outro extremo da mesa de cerimnias, seu Afonso parecia ter nova vida. A seu lado, dona Clotilde, sua esposa, na certa estava de mos dadas com ele por 
baixo da mesa. Ela agora parecia praticamente curada, depois de quatro meses de tratamento com os tais remdios importados.
        Outro casal estava tambm de mos dadas sob a mesa. A linda Carla... Como estava bonita naquela noite! Quem poderia acreditar que aquela beleza de garota, 
de aspecto to delicado, to frgil, que acabara de dar um concerto de piano to aplaudido por todos, poderia ter arranjado coragem para lutar tanto pela liberdade 
do pai? E lutado at fisicamente, bloqueando a porta do subterrneo a pontaps, no escuro, para impedir que os bandidos seguissem Toni? Quantos policiais de verdade 
teriam a coragem daquela menina? De que material era feito um ser humano como Carla?
        Entre o velho diretor da Fundao Educacional Professora Cidinha Moura e a jovem herona, quase colado a ela, estava um rapaz que sara nas manchetes de 
todos os jornais e j fora entrevistado por todas as emissoras de rdio e televiso. 
        Algum que o pas inteiro chamava de... Toni! Como um garoto como aquele conseguira fazer tudo aquilo? Como conseguira desvendar uma trama to perfeita como 
a que a quadrilha de Don Peperone tinha armado? Como poderia ter percebido os detalhes daquela conspirao sinistra onde nem Barbosa, com toda sua experincia, tinha 
visto nada?
        "Talvez, se eu fosse cego, eu tivesse visto...", pensava o investigador, sentindo a emoo a apertar-lhe a garganta. O auditrio inteiro fez silncio. Aquele 
era o momento do discurso do professor Frederico Moura.
        O Velho fez meno de levantar-se e estendeu a mo esquerda para Toni. O rapaz amparou-o e o velho professor iniciou sua fala, com o brao envolvendo os 
ombros do jovem aluno.
        J com as primeiras frases, a emoo da platia comeou a crescer ainda mais. 
        Somente a confiana que toda a cidade devotava  seriedade do professor Frederico poderia anular o escndalo que a imprensa tinha feito com a priso de Larcio.
        E era com essa seriedade, acrescida de uma sinceridade invejvel, que agora discursava o velho professor. 
        Comeou pelo relato do idealismo das geraes de educadores que haviam colocado de p aquele colgio. Todos vibraram com o compromisso de f no futuro que 
aqueles ideais significavam e emocionaram-se com a dor de um pai, que chegava ao fim da vida com um filho na cadeia.
        - Eu, minhas queridas senhoras e meus prezados senhores... - continuava a discursar com a voz embargada - ... criei um criminoso. Podem os senhores imaginar 
o que significa, para mim, trineto da saudosa professora Cidinha Moura, no ter conseguido, com as tcnicas da educao, fazer do meu prprio filho algo mais do 
que um criminoso? Meu corao, que por um triz no foi cortado pela faca empunhada por meu prprio filho, chora de vergonha... A todos vocs eu peo perdo pela 
grande falha em minha misso como educador, em minha misso como pai. Mas, em minha vergonha, quero encontrar compensaes. E, como smbolo das compensaes que 
me fazem pensar que valeu a pena ter vivido to longa vida, tenho aqui, sob o meu abrao, este jovem estudante.
        Centenas de pares de olhos fitavam o rosto bonito, meio ruborizado pela homenagem, do garoto de culos escuros, enquanto o diretor continuava:
        - Este  Toni, o rapaz que me salvou a vida para que eu pudesse encarar a minha vergonha, mas cujo desprendimento me d coragem para enfrentar com otimismo 
o pouco de vida que me resta. O colgio Cidinha Moura no pde fazer de meu filho um homem decente, mas, em cem anos, ajudou a tornar cidados milhares de pessoas 
como este fantstico garoto. Quero que Toni se torne o smbolo da nova fase do Cidinha. Uma fase em que a educao de excelncia no mais seja encarada como o privilgio 
apenas de uma elite, mas que seja acessvel a todos os jovens. De agora em diante, o Cidinha ser de todas as crianas desta cidade, no mais somente das crianas 
que podem pagar mensalidades. Sempre concedemos algumas bolsas de estudo, mas isso no basta. Agora lutaremos para conseguir recursos que mantenham nossas portas 
abertas para todos. Como um hospital decente no pode recusar-se a atender quem o procura, independentemente das posses do paciente, um colgio que merea respeito 
 obrigado a atender a quem precisa de educao. j imaginaram, meus caros amigos, quantos jovens como Toni este pas j perdeu, por negar-lhes uma boa educao 
porque eles eram pobres, porque eles no pertenciam  elite? Quantos gnios que poderiam ter sido novos Einstein, quantos artistas que poderiam ter sido novos Shakespeare 
esto se perdendo no Brasil por falta de acesso  sade,  alimentao adequada,  educao?
        O discurso do professor foi interrompido por emocionada salva de palmas.
        Barbosa no se envergonhava de deixar as lgrimas correrem-lhe pelo rosto.
        O ginsio do Cidinha estava uma beleza, decorado para o baile de formatura das oitavas sries.
        Com o rosto colado ao de Toni, Carla fechou os olhos, deixando-se guiar nos passos da valsa dos namorados. Rodopiava, embriagando-se ao som de violinos, 
nos braos daquele fantstico namorado, que a havia conduzido com segurana em tantas ocasies, e que haveria de continuar a mostrar-lhe caminhos pela vida afora...
        Sorria de leve, como se estivesse para adormecer gostosamente, s portas de sonhos suaves, onde o sol e a lua brilhariam juntos e onde a terra estivesse 
sempre coberta de flores...
        Em muitos momentos, tambm ela havia guiado aquele rapaz e certamente haveria outros em que ele precisaria dela. Mas no  isso o amor? Uma eterna troca?
        
        
        
        
        
        
        
        
        
